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A mulher é o novo homem? Depois da Mulher Alfa, da Nova Mulher, da Mulher X, da Mulher Y, da Mulher 2.0, da Terceira Mulher, da Millenium Woman, da Mulher Polvo, olha só onde fomos parar: somos agora o novo homem. Tudo bem que os gêneros são mesmo frutos de práticas discursivas que mudam ao longo do tempo, mas as construções do gênero feminino na cultura contemporânea parecem mais sintonizadas com a lógica da moda – “o off-white é o novo preto” – do que com os reais e complexos desafios que afligem mulheres e homens do lado de cá das páginas das revistas.

Nas voláteis redes destas significações, a pergunta feita por Freud no início do século passado – o que quer a mulher? – não só segue sem resposta, como agora vale também para os homens: o que quer o homem? Aliás, se pensarmos que masculinidade e feminilidade andam com contornos um tanto borrados, a própria afirmação “a mulher é o novo homem” não elucidaria muita coisa, já que ninguém mais sabe ao certo o que é ser homem também. Estas indefinições seriam muito positivas, caso servissem para impulsionar reflexões corajosas, para formular novas indagações e dar voz a outras respostas. A questão é que o (não) debate que se instaura na mídia é cheio de armadilhas perigosas que, no final das contas, ora propõem uma mera inversão simétrica – homens-frágeis, mulheres-poderosas – ora perpetuam os mesmos velhos clichês, como aquele que afirma que a nova economia é mais afeita ao talento feminino porque as mulheres são intuitivas e flexíveis, enquanto os homens são agressivos e competitivos e, por isso, não servem mais.

Quem mandou fazer sucesso?

Outra constatação “mil e uma utilidades”, repetida em praticamente todas as reportagens sobre o tema, e que merece um olhar crítico, é que a emancipação da mulher é a grande responsável por suas mazelas. A mulher se igualou ao homem e, agora, está doente, está sozinha, está ferrada, coitada. Antes de mais nada, é preciso lembrar que não estamos na Suécia e que é bastante questionável falar em igualdade em um país onde uma mulher é agredida a cada 15 segundos, onde o debate sobre a legalização do aborto está no pé em que está, onde as capas das maiores revistas femininas ainda colocam no corpo belo o principal patrimônio feminino. Dessa forma, por aqui, ainda há bastante o que fazer antes de cantar a vitória da igualdade.

Mas, mesmo olhando com otimismo para os avanços, é curioso notar como a mídia gosta de falar do preço que as mulheres pagam por suas conquistas: “conquistaram o mercado de trabalho e pagam o preço de continuarem solteiras”, “priorizaram a carreira e pagam o preço de não terem se tornado mães”. Pagar o preço, nesta fala, pressupõe que exista um desejo único que une todas as mulheres, uma “natureza feminina” que berra, inconformada, com o corpo que não obedece aos seus verdadeiros instintos: casar, acasalar com amor e ter filhos. Absorvemos essas verdades sem perceber que há nelas um determinismo do qual precisamos nos libertar, mesmo que seja para escolher ter a mesma vida que nossas bisavós. A mulher é o novo homem, o homem é a nova mulher, o que é ser homem, o que é ser mulher? Se está tudo em aberto, por que não experimentar novas configurações, sem a urgência mercadológica de dar contornos ao “target”? Feminino e masculino continuarão a ser aprendidos mas, quem sabe, com novas e mais surpreendentes lições.

Clique aqui para ver a reportagem completa.


Nova coluna, na TPM de setembro.

“Trabalho e filhos”. “Carreira e filhos”. “Mães que trabalham”. “Mães profissionais”. Quatro buscas no Google e os 7 milhões de páginas gerados dão uma pista da fama que ganhou o “dilema da mãe contemporânea”. Blogs, reportagens, pesquisas: parece impossível falar das “mães do novo milênio” sem situá-las em algum ponto da balança maternidade/carreira. Desconfio dessa balança. Desconfio dos seus parâmetros e modelos. Desconfio, aliás, de qualquer modelo que enquadre percursos tão complexos e pessoais.

Não quero menosprezar a dor da mãe que hoje deixou o filho com febre porque não conseguiu adiar a reunião. Também não quero diminuir a angústia daquela que decidiu deixar a carreira de lado para ficar mais perto das crianças e não sabe mais direito quem é. Escolhas difíceis, incertas, abarrotadas de cobranças internas e externas. Trabalho e filhos… Trabalho e filhos? Será mesmo esse o dilema central das mães contemporâneas? Ou das mães de qualquer tempo?

Ter filhos é se lançar em um universo desconhecido. Lemos, estudamos, conversamos com outras mães. Viramos um pouco pediatras, um pouco pedagogas, um pouco cientistas. Bem informadas sobre as sinapses, os benefícios da massagem, a importância dos limites, começamos nossa jornada nos equilibrando com talento na corda bamba da maternidade-modelo. Com sorte, quando o tempo passa, percebemos que, na verdade, sabemos muito pouco sobre o que é ser mãe. E, aí, podemos começar a viver a avassaladora descoberta de quem somos, de quem são nossos filhos e, principalmente, de quem somos juntos, nós e eles.

Os filhos vão crescendo, nós também. Os desafios mudam, as soluções que eram boas há pouco, não funcionam mais e precisam ser repensadas. Se, antes, queríamos apenas lamber a cria, percebemos que temos nossas próprias urgências e desejos. Se, em algum momento, achamos que teríamos todas as respostas, ficamos em silêncio diante das perguntas que não imaginamos que nossos filhos fossem fazer ou que fôssemos fazer a nós mesmas. Vamos, aos poucos, tateando as respostas. Não há muito o que fazer a não ser estarmos abertas à potência dessa transformação.

Isabel é o nome da minha filha, minha maior inspiração. É, também, o nome de uma das personagens de “Antonio”, de Beatriz Bracher, um livro que me arrebatou recentemente. Mãe de quatro filhos, no final da vida ela fala ao neto: “o fato de ao mesmo tempo ter que cuidar da comida, da casa, da roupa lavada, dos machucados, do dinheiro, enfim, do chão necessário para a partida deles, não me tornava muito mais lúcida do que meus filhos. Sempre tive uma sensatez básica, ligada mesmo ao instinto de sobrevivência. No final, a vida sabe cuidar de si mesma e, entre mortos e feridos, salvaram-se quase todos.” Uma jornada compartilhada, de muita cumplicidade. Sem modelos e sem receitas.


“Quando eu era pequena, era fascinada pela lua”, escreve Liv Ullmann. E eu sinto curiosidade e emoção ao pensar que ela tem 7 anos agora e está vivendo, ainda sem saber, coisas sobre as quais um dia falará usando essa introdução: “quando eu era pequena…”. Que coisas serão essas?


Era uma vez um dia livre. O que fazer? Vontade de ficar em casa, sem fazer nada. Mas talvez você devesse ir à academia se exercitar um pouco. Pensando bem, tantas exposicões legais e tão raro ter um dia livre. E sua avó, que você prometeu visitar? Mas, se for ficar em casa mesmo, vê se arruma aquelas gavetas! Para distrair suas vozes internas, você decide folhear uma revista. E a tortura prossegue…

A página, aberta aleatoriamente, diz assim: “transforme uma simples chuveirada em um ritual de beleza e bem-estar”. Mas por que uma simples chuveirada não pode ser uma simples chuveirada? Por que tudo tem que ser uma experiência maravilhosa, um ritual inesquecível? O que fazer com tanta expectativa? Na chuveirada e na vida? E, pior, o que fazer com essa verdade mentirosa que diz que tudo depende das suas escolhas? Do Mozart que, caso você escolha fazer seu bebê ouvir, o fará mais inteligente à soja que, caso você escolha comer, fará você viver mais. A perguntinha segue ressoando: será que você está fazendo a escolha certa?

A combinação do discurso da autonomia individual com ideais de vida sempre tão rigorosos, pode ser muito boa para quem vende produtos, técnicas ou conselhos. Para quem está do lado de cá do balcão, é apenas um cercadinho travestido de liberdade, que gera falta e frustração. Você paga pela frustração de nunca chegar lá – até porque “lá” nunca estará no mesmo lugar – e ganha a culpa de brinde, ao duvidar das escolhas que fez. Porque, é claro, vai duvidar.

Culpa, o pretinho básico

Curioso como a culpa tornou-se um lugar comum nas representações do feminino contemporâneo. Falar da mulher, de uns tempos para cá, é quase sempre falar de múltiplos papéis e da culpa pela impossibilidade de exercê-los com perfeição. Na mídia e na publicidade, a culpa feminina é o tubinho preto, o must have. E funciona como o componente de sinceridade de um discurso que pretende ser mais verdadeiro. Que ganho pequenino. Sinceridade, mesmo, é dizer que a mulher sente tanta culpa simplesmente porque não é livre. Porque no picadeiro de mulheres malabaristas, trapezistas e equilibristas ainda não cabem outras escolhas ou reais imperfeições. A não ser por essa pequena, embora muito perturbadora, concessão: a culpa por não ser perfeita.


Minha coluna publicada na TPM de maio, na reportagem Você é piriguete?

Se piriguete é a mulher perigosa, a mulher que ameaça e incomoda, então quem é a mulher segura, que agrada e se comporta bem? A segurete. Por que não? Se todo mundo pode criar rótulos para mulheres, eu também posso. Mas, para criar um rótulo, é preciso se inspirar em figuras femininas que habitem nosso mundo, real ou imaginário. Vale estar nas bancas de revistas todos os meses? Vale. Então pronto! Segurete é a mulher das revistas. A mulher dos manuais. A mulher adequada. A leitora exemplar. Que batalha para ocupar o estreito espaço que lhe foi oferecido pela mídia e, assim, se sentir segura. Segurete.

Por exemplo, a segurete não sai por aí beijando quem quiser na boca, não. Isso é coisa de piriguete. A segurete está mais preocupada com dicas preciosas para conquistar e manter o romance com que sonha desde sempre. “É ele?” é uma pergunta que a segurete se faz com frequência diante de um pretendente, mal disfarçando a ansiedade para que, sim, seja ele, porque ela não aguenta mais esperar. A revista ajuda: “Como saber (finalmente) se você está namorando”. E dá-lhe manual para ensinar a leitora a descobrir se o gato tem intenções mais sérias. Sempre, é claro, partindo do princípio que ela quer muito e que o namoro só depende da decisão dele. Afinal, a leitora precisa sentir-se aprovada pelos homens para seguir segura. Segurete.

A segurete das revistas precisa também de ajuda para descobrir sua verdadeira identidade, para ser ela mesma. E, novamente, dá-lhe manual. Muitos especialistas a postos para ensiná-la a encontrar o seu “eu de verdade” ou, se o seu “eu de verdade” não estiver mais up-to-date, ensiná-la a reinventar-se. A segurete curte uma reinvenção pessoal. Lembrando sempre que transformar-se nessa mulher poderosa, cuja auto-estima bomba, o corpo resplandece e a felicidade contagia, só depende dela mesma. As regras estão ali, para quem quiser aplicá-las e, assim, seguir segura. Segurete.

O corpo da segurete é um capítulo à parte. Ou, melhor, permeia todos os capítulos. Sem corpo bom a segurete não vai a lugar nenhum. A revista faz a sua parte: apresenta todas as tecnologias revolucionárias para derreter barriga, alisar cabelo, esticar epiderme, combater flacidez, empinar bumbum. Tudo para que a leitora fique “naturalmente” bela, magra e jovem. Aos 20, 30, 40, 50 e mais. Já o figurino é mais simples. Nada que 384 ideias para o look do inverno não resolvam. Qualquer coisa, se ficar confusa, é só apostar no “nude” que deve dar certo por mais alguns meses e seguir autoconfiante e segura. Segurete.

O manual da segurete é extenso e diversificado. Das orientações para atingir o orgasmo aos métodos para educar filhos brilhantes, segurete que é segurete não perde a esperança nem a disposição para aprender tudo e tentar passar na prova. Só não pode ficar segura de verdade porque, aí, não vai mais precisar de manuais e, neste caso, o que será da próxima edição?


Queijo quente na padoca da estrada. Vários homens assistem ao futebol na TV. Todos quietos e muito compenetrados. Chamo o moço do balcão umas três ou quatro vezes até que ele, finalmente, resolve desviar os olhos do jogo e me dá alguma atenção.

O rapaz me olha como se dissesse: tenha a santa paciência! Precisa mesmo pedir agora? Ele repete tudo o que eu digo, possivelmente para ganhar tempo e ver mais um lance, antes de ser obrigado a levantar-se do seu banquinho vip para atender aos meus caprichos. Mais ou menos assim:

Eu: “por favor, eu queria dois queijos quentes no pão de forma.”
Ele: “dois queijos quentes? … … No pão de forma?”
Eu: “isso. E dois sucos de laranja.”
Ele: “dois sucos? … … De laranja?”

Os dois queijos quentes não parecem ser um problema para ele, porque a execução desses ele delega, berrando, ao chapeiro que está no outro balcão. Ele que se vire. Mas os dois sucos de laranja… Pô, será que eu não entendo? Não estou vendo a posição do espremedor de laranjas? Não percebo que, para fazer meus dois sucos de madame desconectada da realidade, ele será obrigado a ficar de costas para a televisão? Em que planeta eu vivo? Não estou vendo que o São Paulo e o Corinthians estão jogando? Onde está o respeito às individualidades? Eu não podia ter pedido uma Coca e pronto? Por que as mulheres são tão complicadas?

É claro que ele não diz nada disso. Mas pensa. Ele e os demais rapazes que estão debruçados sobre o balcão, olhos esbugalhados, fixos no monitor. Aliás, todos eles devem ter dito algo semelhante em casa, antes de resolverem assistir ao jogo, em paz na padoca, longe desses inconvenientes pedidos femininos.

De costas para a TV, ele prepara meu suco e eu fico ali, absorta em meus pensamentos, enquanto olho minha filha andando pra lá e pra cá. Mais precisamente, penso em como evoluí como mãe, desde os tempos em que esterelizava a chupeta a cada vez que ela caía no chão da minha própria casa. Como me abri ao fascinante mundo das bactérias para chegar até esse queijo quente na padoca da estrada. Nem gel antisséptico eu carrego mais…

Já estamos saboreando nosso queijo quente engordurado quando, de repente, o Corinthians faz gol. GOOOOOOOLLLLLLLLL. Todos os homens, mudos até então, agora berram, urram, batem as mãos no balcão várias vezes e, finalmente, verbalizam sua forte emoção: “pu*** que pa***, cara****!!!!!”

Depois de quase cair do banquinho, tamanho o susto que leva, minha filha me olha, atônita, e seu olhar é de pura interrogação. Ela não me pergunta nada, mas leio seus pensamentos: “você pode me explicar o que significa isso, já que você é minha mãe e, como você mesma diz, sabe de coisas que eu ainda não sei?” Eu não respondo nada, mas ela também deve ler meus pensamentos: “não, não posso te explicar porque não faço a menor ideia.” Ela, então, também resolve verbalizar sua forte emoção e diz: “tenho vontade de matar esses homens.” Compreendo, mas não apoio essa reação motivada pela mera construção cultural dos gêneros. Mas acho desnecessário prosseguir a conversa porque há coisas na vida que ela vai ter que entender – ou não entender – sozinha.


Não estamos na Idade Média. Não há castelos, não há cavaleiros, nem carruagens. Tudo se passa em uma linda praia. Praia de areia branca e fofa, mar verde e muitos peixes. Ali, o céu é bem azul de dia e muito, muito estrelado à noite. Encantos e feitiços, há aos montes. Príncipes e princesas, também. Todos aprendendo a lidar com hormônios esquisitos que começam a inundar seus cérebros bem confusos.

Há muitas bruxas nesta história. A maior parte delas, as princesas só conhecerão no futuro. Um futuro próximo, talvez. Há a bruxa culpa, a bruxa obsessão, a bruxa não posso engordar, a bruxa não posso envelhecer, a bruxa boicote a sonhos, a bruxa preciso do que na verdade não preciso… e muitas outras, que estão só esperando sua hora para começar a atazanar a vida das lindas princesas.

Nossa princesa favorita – neste reino à beira-mar – tem 14 anos. Todos os anos, ela passa férias nesta praia por tempo suficiente para que seus pés pareçam tudo, menos pés de princesa. E sua pele fique moreninha, moreninha (no tempo dessas princesas, o sol era um grande amigo e ninguém via nenhuma razão para se proteger dele).

Este reino é mesmo um lugar encantado para nossa princesa. E é também seu grande segredo. Foi neste reino que ela descobriu que se sente sozinha e que gosta de se sentir assim. Descobriu que dentro dela, existem duas, talvez mais. Descobriu o amor e o prazer. Descobriu a raiva, a aflição e muitos momentos incríveis dos quais se lembrará para sempre.

Quando nossa princesa se senta diante do mar, no final da tarde, não sabe direito o que sente, mas sabe que sente o sentimento mais forte que já sentiu, que enche seu peito da certeza de que, se conseguir se livrar de todas as bruxas que ainda virão, ela vai viver uma vida linda e cheia de aventuras.

Nossa princesa tem uma enorme urgência de viver. Quer crescer logo. Ser uma princesa adulta. Viver todos os amores que imagina que vai viver. E sua imaginação é muito ativa! Mas isso é a cabeça da princesa. Seu corpo está preguiçoso da vida. Não quer crescer não. Quer ser o mais criança de todas as outras princesas do reino. Para a alegria da mãe da princesa. Alegria boba que a princesa só conseguirá entender no futuro, quando também for uma rainha, cuidando de outra princesa.

Foi numa noite – neste reino à beira-mar – que a princesa encontrou uma fada. Ela era muito linda, roxa e brilhante, falava devagar, bem pausadamente. Seu nome era Paciência. Ela disse assim à princesa: “sou sua fada e seu maior desafio. Vou te proteger e também te ameaçar. Muitas vezes lutaremos juntas contra todos os inimigos. Outras vezes, é comigo que você lutará. Brincaremos de esconde-esconde, às vezes rindo, às vezes não. Você achará que sou eu a inimiga, mas é comigo que chegará aos lugares mais maravilhosos e encontrará os tesouros mais preciosos. Começaremos nosso jogo agora”. Dizendo isso, a fada desapareceu. Nossa princesa começou a chamá-la, chamá-la até gritar… Ficou furiosa e saiu chorando e batendo o pé. Ainda levaria algum tempo para saber que jogo era aquele e porque era preciso jogá-lo…


Minha coluna, publicada na TPM de março, na reportagem “Vai subir?”, sobre garotos que tomam Pramil, um primo do Viagra.

“Sexo 40 graus.” “O melhor sexo da sua vida.” “O clímax de 43 segundos.” “Os portões do paraíso.” “Orgasmo já!” “Explosão de prazer.” “Hot!” “Sexy!” “Tórrido!” “Garota, chegou a sua vez.” Nas chamadas de capa da “revista feminina mais vendida no mundo”, a nova velha ordem: goze hoje! Goze sempre! Para sempre. Do ponto de vista masculino, só mesmo uma ereção permanente para dar conta dessa máquina de prazer, dessa mulher assustadoramente livre, poderosa, dona do seu corpo e do seu desejo.

Assustador, entretanto, é notar que a mulher que pulsa de prazer nas páginas da revista não parece livre, nem poderosa, não parece dona do seu corpo, nem do seu desejo. Sua imagem é a de uma obediente seguidora de regras que copia o look de uma, batalha pela barriga de outra, lambe de cima para baixo, agora de baixo para cima, segura no ângulo x, apalpa com a pressão y. Aprendeu? Recorte e leve na bolsa, para consultar. Que par perfeito: a mulher turbinada pelas técnicas do desejo e o homem turbinado pela pílula da virilidade. Dois tristes personagens de um mundo obeso de sensações, explodindo de excitação produzida por corpos perfeitamente artificiais. Um mundo de espelhos.

Jovens saudáveis tomam remédio para a impotência sem serem impotentes. Como assim, sem serem impotentes? Somos todos impotentes. É impossível não ser impotente diante desse ideal de prazer. Nunca conseguiremos sentir essa profusão de sensações ininterruptas. Para sempre haverá um abismo entre a mediocridade de nossas vidas comuns e a usina de energia que bomba no trio elétrico da mídia. “Vivo tão intensamente que não dá tempo para ter medo, insegurança” disse, mês passado, a estrela de muitas capas. Ela disse e a revista, é claro, destacou a frase, que funciona como uma espécie de síntese de seu projeto pedagógico. Mas que graça tem viver assim? Que graça tem uma ereção que nunca acaba?

Uma vez ouvi de um amigo que a fragilidade era o que mais o interessava nas pessoas. Um ponto de verdadeira conexão. E que, por isso mesmo, ele não fazia a menor queståo de esconder as suas ou, mesmo, de resolvê-las. Na época, devo ter sugerido que ele aumentasse a frequência das suas sessões de análise. Hoje, pediria imediatamente o número do seu analista. Quando o efeito do remédio passar, os espelhos ficarem empoeirados e, eventualmente, o par perfeito se olhar de perto, é provável que também concorde com meu amigo.


Minha coluna, publicada na Revista TPM de janeiro.

A vida dos profissionais de marketing já foi mais fácil. Bons tempos – e nem faz tanto tempo assim – em que seu trabalho era decidir como comunicar as incríveis novidades que os engenheiros inventavam para os produtos. Faziam umas pesquisas para se certificar de que a massa de consumidores entenderia o que seria dito na publicidade, compravam bastante espaço para pôr seus comerciais na novela e pronto.

As coisas ficaram mais difíceis quando falar do produto já não fazia muita diferença. Com a tecnologia disponível a todos os concorrentes, as marcas passaram a precisar de personalidade, de alma. Os profissionais de marketing tiveram que ficar sensíveis – meio místicos, meio bruxos – para dar conta de tanta magia. Alma psicografada, o negócio era dar play no maior número possível de canais, para cobrir a audiência cada vez mais fragmentada, com mensagens coerentes e, principalmente, controladas.

Mas estes consumidores não sossegam! Agora resolveram se expressar. Estão ficando saidinhos. Escrevem blogs, publicam o que querem, atingem milhares de pessoas, se organizam em torno de seus próprios interesses e causas. E, ainda por cima, estão ficando céticos em relação à publicidade das empresas. Preferem as recomendações de pessoas comuns, dentro ou fora do ambiente on-line. Pessoas conectadas com pessoas. Milhões de pessoas conectadas entre si. Os publicitários devem estar pensando que eram felizes e não sabiam, quando seu principal desafio era o controle remoto.

Embora muito do que se vê nas redes sociais ainda seja motivado por uma vontade de aparecer nunca antes imaginada – com pessoas compartilhando com o mundo notícias tão relevantes quanto “estou saindo da academia” – é impossível não enxergar a descentralização da autoridade entre emissores e receptores e o potencial de transformação que isso representa. O problema é a vontade incontrolável de controlar. Especialistas se apressam em desenvolver técnicas para colonizar as novas terras, aprendendo a identificar influenciadores e a utilizá-los como mídia “espontânea” de suas marcas. O risco é que, para lidar com tanta “espontaneidade”, no limite, não acreditemos mais em nada. Já imaginou? Você desconfiar que sua mãe é agente de boca-a-boca da malharia do bairro e é por isso que insiste que você leve o casaquinho para não tomar friagem? Bom será se marcas com postura transformadora – acho que existem – optarem por, no lugar de velhas estratégias de controle, fortalecer movimentos e espalhar ideias que realmente façam diferença em nossas vidas e no mundo.


Acorda, toma café rapidinho. Corre no clube, toma banho rapidinho. Depilação, unha, supermercado, livraria, almoço rapidinho. Liquidação, tecido novo para o sofá, exposição na Oca, café rapidinho. Corre, que ainda tem que tirar o atraso do cinema, jantar em algum lugar que valha a pena, passar no aniversário da amiga e tentar dormir bem para descansar, porque os sábados servem para isso. Para tudo isso. Encontro semanal com o seu bem-estar…

Quer saber o que é bem-estar? Ou melhor, o que é ser produtiva? Ou melhor ainda: o que é uma mulher produtiva em busca do seu bem-estar? Lá vai: sábado, uma amiga combinou um almoço comigo. Já estava chegando a hora e ela me ligou: “estou quase acabando tuuuudo o que tinha pra fazer. Agora só falta trocar minha aliança, mas já estou aqui na porta da H.Stern”. Demorei alguns segundos para entender. Por que ela ia trocar a aliança? A resposta veio sem que eu precisasse perguntar: ela não gosta de aliança fina, nunca gostou e, agora, cinco anos depois, resolveu trocá-la por uma mais grossa. Nunca esteve tão claro para ela: essa coisa de aliança fininha, delicadinha, levinha não combina com sua mão e, muito menos, com o seu casamento. Existe casamento fininho, delicadinho, levinho? O marido continuará a usar a aliança fininha porque ele gosta. Ou talvez goste da idéia de um casamento mais levinho. Mas ficou tudo bem entre eles. Aliás, tudo ótimo. Nada mais honesto que a aliança, justamente o objeto que simboliza a união, deixe bem explícita a questão essencial de todas as uniões: as diferenças. Cada um com sua individualidade, cada um com a sua espessura de aliança!

No mesmo dia, já em outro lugar (sábado é sábado), ouvi duas mulheres conversando. O assunto? Alianças. Ex-alianças, nesse caso. Elas conversavam sobre o que haviam feito com as suas, depois da separação. Uma largou a aliança numa caixa de badulaques, misturada a lápis quebrado, papel velho, parafuso perdido, e seu destino parece certo: o lixo. A outra guardou a sua na caixinha de jóias, sem pensar muito, mas agora, pensando bem, pra quê? Até o final da noite ela já tinha decidido que ia derreter a aliança e mandar fazer um pingente para sua filha. Quem sabe um anjo protetor das diferenças?

E levando-se em conta que, segundo o IBGE, aproximadamente 30% dos casamentos acabam em separação, esse negócio de derreter alianças e transformá-las em outra coisa pode ser promissor.


Minha coluna, publicada na TPM de agosto, na reportagem “Mentira!”

Vidas Editadas
Por Denise Gallo

Nunca compare seu interior com o exterior dos outros. A frase, muito usada por um amigo meu, é conselho essencial para a sobrevivência em tempos de biografias lapidadas. Repita-a mentalmente quando encontrar aquele casal que adora relatar viagens românticas inesquecíveis, quando conversar com a ex-colega de faculdade que está à mil na carreira, quando estiver diante das fotos daquela família linda, que não é a sua, e parece tão perfeita. Agora, se você gosta de ler entrevistas com mulheres famosas em revistas femininas, faça um favor a si mesma e tatue a frase na mão para jamais perdê-la de vista. Assim, chamadas de capa do tipo “hoje sou uma mulher que tem tudo”, terão o destino que merecem: sua indiferença.

Estariam todos mentindo? Provavelmente não. Apenas elaborando narrativas atraentes. Realidade com toques de ficção. Ou ficção com toques de realidade. Estes limites andam mesmo muito tênues. Mentiras sinceras, como diria Cazuza. As vidas narradas podem soar tão bem… Com discursos apoiados em experientes consultores de imagem, então, são verdadeiros bálsamos para reforçar nosso imaginário de sucesso. Quando o que conta é a visibilidade, passar em branco é o pior dos pesadelos. Mas, com uma boa estratégia de branding, todo mundo pode lançar um novo “eu”, posicioná-lo no mercado das identidades bem-sucedidas e melhorar sua performance.

Invente-se, depois reinvente-se
Lembro de uma matéria publicada, há algum tempo, na maior revista do país, sobre a importância de esculpir uma marca pessoal convincente, da mesma forma que as empresas fazem com os seus produtos, com a ajuda de profissionais especializados. O renomado especialista em autopromoção dava o tom: “você precisa ser a sua melhor criação”. A melhor coisa era o teste de 32 questões para avaliar “o que você oferece, para quem e o que tem de diferente”, se “sua aparência reflete quem você é e está adequada ao seu mercado”, se “você sabe dizer sem pestanejar quais são suas grandes paixões na vida” e se “você sabe qual é o próximo passo para a evolução da sua marca”. Para aqueles que não atingissem desempenho satisfatório, o implacável veredicto: “você é invisível”.

Munidos de subjetividades bem planejadas, expressas em “lifestyles” coerentes e atualizados, sem nunca perder o bonde das tendências, os indivíduos/marcas ocupam seu lugar no mundo/mercado. Fazendo aquele esforço diário para acreditar no personagem. Mas, o bom é perceber que nem sempre a vida aceita planos bem bolados só porque são bem bolados. E, quando as coisas dão errado e a marca sai de linha, vem a incrível oportunidade de olhar para o vazio e perceber na fragilidade a maior das inspirações. Para pensar sobre isso, sugiro o filme “Enquanto o sol não vem”, de Agnès Jaoui. Uma linda homenagem àquilo que não queremos mostrar sobre nós mesmos.

Denise Gallo é sócia da Uma a Uma, empresa de inteligência de mercado especializada em comportamento feminino.


O nome da nossa entrevistada é Ana Lígia. Tem 41 anos, é arquiteta e mãe de duas meninas. Está separada há um ano e meio. Não iremos descrever sua extenuante rotina de mãe, profissional, dona-de-casa, solteira, amiga, filha, paciente, neo-baladeira etc., porque já dá pra imaginar. O resumo do resumo: não dá tempo!

Ana Lígia gosta de pensar que um ano e meio ainda é pouco tempo para construir uma “vida nova”, mas é obrigada a discordar de si mesma cada vez que recebe uma notícia do seu ex-marido que, no mesmo ano e meio, já conseguiu emagrecer, voltar a surfar, ser promovido, comprar uma casa na praia, viajar para os quatro cantos do mundo e casar-se com uma moça de 28 anos que, Ana Lígia soube esses dias, está grávida de 3 meses. Um ano e meio: tanto para uns, tão pouco para Ana Lígia.

Quando Ana Lígia sente-se sozinha, ela entra no site do IBGE. Ela gosta de se reconhecer nas estatísticas e lembrar que não, ela não está sozinha: a taxa de divórcios no Brasil subiu 200% entre 1984 e 2007; em 2007, para cada quatro casamentos civis, foi realizada uma separação; a idade média da mulher quando se separa é justamente 39 anos; é a mulher quem fica com a guarda dos filhos em 89% dos casos; os homens divorciados se casam mais do que as mulheres divorciadas e o casamento entre homens divorciados e mulheres solteiras foi a modalidade que mais cresceu entre os registros civis na última década. Ou seja, o IBGE é praticamente um anti-depressivo para Ana Lígia. Quantitativamente, Ana Lígia pertence.

Qualitativamente, as coisas são um pouco mais complicadas. Se, até pouco tempo atrás, Ana Lígia costumava ouvir as histórias de suas amigas solteiras com a curiosidade de um antropólogo, agora ela – plim! – escorregou para o lado da tribo. Mas não pôde escorregar completamente porque tinha que levar as meninas à escola hoje cedo. Seu rito de passagem – aquele momento em que, depois de 10 anos de casada e um ano e meio separada, Ana Lígia se verá protagonizando uma cena íntima com um novo homem, também conhecida como sexo – ainda está por acontecer. Pensar nisto provoca em Ana Lígia um misto de euforia e pânico. Mais euforia do que pânico, talvez, dependendo da quantidade de luz que ela projeta na cena imaginária. Quanto mais escuro melhor, porque Ana Lígia anda cheia de encanações com o seu corpo.

O que está acontecendo na vida de Ana Lígia merece muita atenção. Segundo suas próprias palavras, “turbilhão de mudanças, turbilhão de emoções”. Reorganização total. Da forma como passou a administrar a casa às mudanças nos hábitos de lazer. Dos novos amigos que fez às viagens só com as filhas. Do medo do primeiro Natal ao prazer de ficar em casa sozinha. Do novo planejamento financeiro à curiosidade sobre tudo o que está por viver. Novos hábitos, novas necessidades, novos consumos. Ana Lígia precisa ser melhor compreendida para ser melhor representada e comentou conosco que, evidentemente, nunca se reconhece nas publicidades que vê. Mas isso não é novidade.

No final de nossa conversa, Ana Lígia nos disse que talvez não faça sentido esperar por uma “vida nova” porque a “vida nova” é o que está rolando todos os dias e, apesar de todo o caos, ela não lembra de ter se sentido tão cheia de vida como agora. Isso sim é novo.

Denise Gallo é sócia da Uma a Uma, empresa de inteligência de mercado especializada em comportamento feminino.


Minha coluna, publicada na TPM de julho, dentro da reportagem “Nojenta?“. Tema: excesso de higiene feminina ou mulher limpinha, lisinha, sem pelos, sem cheiro e sem graça…

Neutralize-se
Por Denise Gallo

Após meses de sedução mútua, encontram-se na rua, por acaso, e resolvem tomar um chope. Um frio na barriga puxa o outro e acabam indo para a casa dela. Mas ela sente um mal-estar. Sabe que não está preparada. Precisa resolver algumas pendências o quanto antes. Por isso, pedirá a ele que escolha uma música e correrá até o banheiro. Será rápida. Com a base líquida, cobrirá as manchinhas na pele. Com o creme depilatório, fará sumir os pelos intrusos. Com o lenço umedecido íntimo, eliminará “odores naturais”. Umas gotinhas de perfume e – agora sim! – sente-se adequada e feminina. Pronta para trocar fluidos higienizados noite adentro.

“Neutraliza odores naturais femininos”. Essa promessa, estampada em tantas embalagens de produtos íntimos, é a mais perfeita tradução do comando sórdido que dá como certo que odores naturais femininos são indesejados. Aliás, quando se trata do corpo feminino, a coluna dos “naturais indesejados” não para de crescer. Nada está bom do jeito que é. O Photoshop invade a vida real, na forma de corretivos, lenços umedecidos e aromatizantes bucais, para retocar cheiros e sabores, texturas e cores, rugas e manchas. Neutralizada em suas singularidades, a mulher lisinha, sequinha, com sabor de cereja e cheiro de perfume é a mulher desejável. Lição a ser aprendida desde cedo, como comprova a revista mui-amiga das adolescentes e suas matérias sobre produtos para beijar bem ou sobre lencinhos íntimos que “depois que você experimentar se tornarão itens de primeira necessidade em sua bolsa”. Por essas e outras fica mais fácil entender porque uma autora que inventa uma personagem que gosta do cheiro do seu corpo, uma coisa aparentemente simplória, é aclamada mundo afora como nova feminista.

É verdade que os médicos dispensam boa parte das traquitanas ofertadas nas prateleiras, quando orientam a higiene adequada, em geral muito bem resolvida com água e sabão. De qualquer forma, elas não são vendidas como meros produtos de higiene. Há uma teia de significados sugerindo que, mais do que limpar, trata-se de um ato de amor, de respeito, de cuidado consigo mesma. Mulheres passam publicidades inteiras acariciando-se em banhos intermináveis enquanto enfatizam que isso é ser feminina. “Cultive sua feminilidade todos os dias”, sugere o comercial de um. “Deixa a mulher ainda mais feminina”, promete o site do outro. Feminina e neutralizada.

Voltando à garota do início, podemos torcer para que, quando ela tentar ganhar tempo com o truque da música, ele fale que não precisam de música porque prefere ouvir a respiração dela. Ela, então, não terá como fugir para a sessão de assepsia no banheiro e, meio aflita, terá que vivenciar os cheiros e sabores do seu corpo em um dia normal. Mas, num lance inesperado da vida, esquecerá tudo o que leu nas revistas sobre o poder da pele aveludada e, um pouquinho mais livre, experimentará um outro tipo de intimidade. Nada neutralizada dessa vez.


Toda mãe ou todo pai – ou, pelo menos, os paranóicos – já foi invadido pelo horror de imaginar o que aconteceria a seus filhos se eles, pais e mães, batessem as botas. Se os filhos são pequenos, então, essa é uma imagem tão insuportável que nem dá para descrever.

Para quem, de vez em quando, é assombrado por esse pensamento cruel e doloroso, o funeral de Michael Jackson foi um verdadeiro filme de terror. E mostrou que a fantasia de que, na falta da proteção dos pais, os filhos poderão ser jogados na cova dos leões tem mesmo fundamento. Michael, do seu jeito excêntrico, possivelmente exagerado, conseguiu preservar seus filhos dos holofotes por anos e anos. Não dá pra saber se a forma que escolheu para fazer isso, cobri-los com panos esquisitos, de fato os preservou ou os expôs ainda mais. De qualquer forma, num mundo sedento por imagens, as imagens dos seus filhos estavam protegidas do público. Era sua opção. Obsessivamente mantida. Ainda que sua cor e seu nariz não parassem de mudar, essa decisão se manteve estável.

Por isso, é chocante que, apenas alguns dias após sua morte, esses filhos tenham sido expostos ao mundo de forma tão ostensiva. Incentivados pela família. Dos rosto cobertos de pouco tempo atrás ao choro em close transmitido para o mundo inteiro, sem escala. Que desespero Michael Jackson deve ter sentido caso tenha assistido à transmissão lá do céu, ao ver sua filhinha naquele palco, chorando, nervosa, expondo para o mundo inteiro um momento de tanta fragilidade. Aqueles tios e tias em volta da menina, preocupadíssimos em arrumar o microfone, certificando-se que a potência midiática daquele ato (espontâneo?) não fosse enfraquecida por um simples microfone desajeitado, assustou. E funcionou. Em todos os jornais, sites, programas, o registro do momento, qualificado como o mais emocionante da cerimônia-circo, classificado como a máxima homenagem.

Uma menina de 11 anos, filha da mega-celebridade mundial, agora órfã de pai, chorando em cima de um palco, declarando seu amor: uma combinação perfeita para desencadear choros em série. Chamar isso de homenagem ao pai que nunca a quis sequer fotografada ao seu lado é um pouco estranho. Mas o que não é estranho em tudo o que cerca a morte de Michael Jackson?


Minha coluna, publicada na revista TPM.

O parto é um momento de intimidade. Intimidade da mulher com seu corpo, da mulher com seu parceiro, da mulher com seu bebê. Da mulher com seu médico, com o assistente do médico, com a enfermeira, a outra enfermeira, o anestesista, o fotógrafo, o cameraman e, eventualmente, a platéia de amigos e familiares emocionados, que se posta do lado de fora do vidro, para ver o show da vida começar. A falta de privacidade é só um dos desafios da experiência. Há ainda que abstrair-se da luz forte, dos sons estranhos, dos instrumentos ameaçadores dispostos na bancada, do medo que o médico tenha outro compromisso, etc., etc.

Mas, não é sempre assim. Muitas mulheres fazem escolhas – aquelas que podem escolher – para contar com tempo, espaço e dinâmicas que cooperem com o desejo por uma experiência mais intimista e menos intervencionista, em que o corpo avance até o nascimento de forma natural. A busca pelo que é natural poderia ser um movimento simples, intuitivo… natural. Física e emocionalmente. Cada um a seu tempo, em contato com novas sensações, imprimindo seus próprios significados às experiências vividas, Mas as práticas naturais da vida também já foram colonizadas. Ao parto natural e à maternidade já foram coladas narrativas-modelo, ultra idealizadas, que dão forma ao que viver e sentir. Mulheres-deusas, no mínimo. Nas articulações desse mecanismo, um paradoxo: é preciso aprender a ser natural. Cursos, livros, terapias, produtos. Mas, o que há tanto a aprender, se é para ser natural? Ou seria mais o caso de desaprender? Desaprender, para resgatar a natureza feminina, essência de toda mulher? Aí começa um outro problema…

A natureza feminina é um conceito perigoso. Dissemina-se na figura da mulher “misteriosa”, que poderá ser decifrada a partir dos seus hormônios. As feministas se dedicaram a desconstruir esta noção, lá no século passado, separando sexo biológico e gênero e mostrando que muitos dos comportamentos femininos tidos como “naturais” são, na verdade, produtos da cultura. Mas na mídia, por exemplo, o mito da natureza feminina sobrevive forte e saudável, em discursos pontuados por novíssimas pesquisas biomédicas ou por curiosas formulações evolucionistas. Nos domínios deste mito está o mais incisivo dos imperativos que recaem sobre a mulher: só é mulher de verdade, aquela que é mãe. Não quer casar? Muito interessada em seu trabalho? Gostando da sua vida sem filhos? Tudo bem, tudo ótimo, mas aguarde, porque, no frigir dos óvulos, o relógio biológico vai cobrar a conta.

Parece rigoroso e cruel com aquelas que escolhem trilhar outros caminhos, desobedientes à tarefa de procriar. Precisamos aprender a refletir criticamente sobre os muitos discursos impositivos, sobre o que é ser mulher e como ser mulher. E, mais ainda, de motivar este pensamento crítico nas filhas dos partos naturais que um dia escolhermos, SE escolhermos ter.


Uma menininha de 6 anos – elas, sempre elas, essa inesgotável fonte de questionamentos inspiradores – acorda de manhã e pergunta à mãe:

“Mamãe, existe menina que namora menina?”

Antes de responder, a mãe, sonada, pensa: “o que é isso? Com o que essa garota sonhou? De onde vem essa pergunta logo cedo? Bom, vamos lá…”

“Sim, existe.”

“Por que?”

O que significa este “por quê?”, especula novamente a mãe-pensadora, agora já menos sonada. Seria apenas uma vinheta de passagem, quase um TOC infantil, que sempre se repete, independentemente do tema? Ou seria a hegemonia da cultura heterossexual já pesando na existência da menininha de 6 anos? Disney, Disney… Bom, vamos lá, novamente…

“Porque gostam.”

Mas questionamentos de menininhas de 6 anos não se contentam com pouco:

“E aí pode ter filho?”

“Não, quer dizer, sim, quer dizer, depende, quer dizer: vamos tomar nosso café-da-manhã?”

A mãe fala que, para ter filho, precisa de um pai e de uma mãe. Fala, mas, imediatamente percebe que esta informação está totalmente desatualizada, do ponto de vista político e científico (mais científico do que político, é verdade). A menininha, então, derrama sua liquidez-pós-moderna e resolve o problema: “ah, tudo bem, vai ter um pai de cabelo comprido”. Ao menos esteticamente, está tudo resolvido. Fica assim estabelecido, nesta conversa matinal básica, que meninas que namoram meninas podem ter filhos e pronto.

O caso de Adriana Tito Maciel e Munira Khalil El Ourra está aí para mostrar a atualidade do pensamento da menininha de 6 anos. As duas, que vivem juntas há dois anos, são mães biológicas de um casal de gêmeos que acaba de nascer. Uma doou os óvulos, que foram fecundados pelos espermatozóides de um doador anônimo e implantados no útero da outra. As mães, agora, lutam para conseguir na Justiça o direito à dupla maternidade. Trata-se de um pedido inédito no país. Segundo especialistas, com poucas chances de ser concedido.

A legislação e os padrões sócio-culturais estão andando bem mais devagar do que a ciência. Mas, é claro que, cada vez mais, as configurações familiares vão se multiplicar. Assim como vão se multiplicar as definições de gênero, sexo, maternidade, paternidade. Voltando à menininha de 6 anos, sua pergunta escancara, no mínimo, uma realidade: refletir sobre os padrões que estabelecem o que é “normal” e o que é “esquisito” é fundamental para aqueles que educam as novas gerações.

Denise Gallo é sócia da Uma a Uma.


Minha coluna publicada na última edição da revista TPM, dentro da reportagem especial da revista, cujo tema era o aumento de consumo de cocaína entre as mulheres.

Felicidade transbordante
Por *Denise Gallo

A felicidade é a religião do indivíduo moderno, escreveu Edgar Morin. Sua essência é uma “mitologia euforizante”, que arremessa para longe qualquer mal-estar que incomode o lustroso projeto de vida contemporâneo: um conto bem contado, que combina prazer em doses cavalares, poder individual ilimitado e soluções imediatas para todos os males, renovadas a cada estação. Funciona bem, nas páginas das revistas. Quanto à insatisfação crônica que ronda as vidas imperfeitas do mundo real, num eufemismo esperto, ela vira “motivação para a mudança”. E é importante que seja assim, pois, sem insatisfação, não há consumo e sem consumo…

O romance Ser Feliz, de Will Ferguson (Companhia das Letras) – não sou a primeira a citá-lo – é uma irônica descrição do que aconteceria caso o projeto de felicidade da nossa cultura fosse concretizado. Na história, uma editora publica um livro de auto-ajuda que, diferentemente dos demais, funciona. As pessoas que leem, atingem um grau de bem-estar nunca experimentado e, plenamente satisfeitas, não querem mais rejuvenescer a pele, fazer dieta, comprar acessórios da moda ou ouvir conselhos. Como consequência, as indústrias começam a falir e o capitalismo entra em colapso. Curiosamente, as primeiras “vítimas” da nova ordem são as indústrias de tabaco, de bebidas e as drogas. Faz sentido. Assim como faz sentido o seu oposto: que uma sociedade regida pelo imperativo do gozo inatingível veja crescer o consumo dos mais diversos aditivos químicos que estreitam, ainda que momentaneamente, o abismo entre projeto e realidade. Difícil dar conta dessa obrigação de ser feliz.

Enquanto a ficção não se torna realidade, um entusiasmo excessivo, totalmente dependente do consumo, segue estampado em capas e telas. A mídia é empolgada por natureza. A mídia feminina, ainda mais. Mulheres saltitantes e sorridentes rodopiam de uma página a outra. O êxtase é total. Ou melhor, o êxtase é total!!! Isso mesmo: total!!! Alguém pode me explicar para que tantos pontos de exclamação? Eu contei: quarenta e nove pontos de exclamação foram utilizados em apenas oito capas de uma revista feminina feita para as mulheres de 20 e poucos. Sobre a origem do ponto de exclamação, a Wikipedia explica que a hipótese mais provável é que o sinal tenha surgido da junção de letras da palavra io, “exclamação de alegria”, em latim. Esse é o problema: quem sente tanta alegria? Aí você olha para sua vida, onde provavelmente encontrará muito mais pontos de interrogação, eventualmente algumas reticências, e talvez pense que há algo errado… com a sua vida ou com a revista?

Abaixo o ponto de exclamação. Chega do show de empolgação que nada tem a ver com as contradições humanas. Precisamos todos nos desintoxicar desse drive-thru de felicidade, de definições arbitrárias e receitas infames. Peça pelo número: zero. E não se esqueça que a moda agora é ser simples. Mas essa pegadinha, a gente deixa para um outro texto.

*Denise Gallo, 38, é sócia da Uma a Uma, empresa de inteligência de mercado especializada em comportamento feminino: blog.umaauma.com.br. Seu email: denise@umaauma.com.br


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Educar é um prazer e um suplício. Para mães obsessivas, como são 99,9% das mães, é difícil que se passe um só dia sem que alguma complexa questão seja formulada na cachola. As questões, evidentemente, vão mudando ao longo dos anos e, com o tempo, a gente percebe que não precisaria ter se preocupado com boa parte delas (“ai meu Deus! Planejei tirar a chupeta da minha filha aos 3 anos e ela já está com 3 anos, um mês e oito dias e eu ainda não tirei!!!!”). Que diferença isso vai fazer? Mas este “distanciamento histórico” não alivia em nada porque as questões de hoje são sempre as fundamentais. E são tantas as questões! E são tantas as mães falando sobre essas questões! Está todo mundo sempre se perguntando alguma coisa. E mais um tanto de gente se metendo a responder, com base em algum dos milhares de livros, pesquisas, especialistas e saberes técnicos que, paulatinamente, vão soterrando a (um dia célebre) “intuição de mãe”.

Mas, também, como dar ouvidos a uma reles intuição quando já existe até universidade para a formação de pais? Sim, sim. A Folha Equilíbrio de ontem noticiou que foi criada uma Universidade para pais, na Espanha. Os alunos (pais e mães, no caso) são orientados por “um tutor, que prepara atividades e tarefas de casa, faz avaliações, dá notas e auxilia nos problemas e nas dúvidas, tudo isso para que os pais consigam transmitir aos filhos o que é chamado de recurso educativo”. Não é incrível? Intuição vai virar coisa de curandeiro! Imagine seu filho adolescente jogando na sua cara: “ô mãe, você nem tem o superior completo de maternidade e acha que pode me dizer o que tenho que fazer? Qual a sua fundamentação teórica, afinal, para afirmar que eu preciso estudar? Cadê o seu diploma de mãe?”.

E quem faz terapia (ou seja: 99,9% das 99,9% das mães obsessivas citadas), ainda tem que lidar com a consciência dolorosa (ou ilusão) de que todos os nossos movimentos maternais terão um imenso impacto na saúde emocional de nossos filhos. É bom, porque, assim, a carga aumenta bastante e é esta ilusão de controle que nos faz comprar livros, ler revistas, fazer cursos etc. Imagine se minha avó lá estava preocupada com o que Freud postulou sobre o desenvolvimento da sexualidade das crianças.

Já faz algum tempo que as pesquisas da Uma a Uma vêm mostrando que as mães estão cansadas de tantas regras e teorias. Mas são tão grandes as expectativas que depositamos nos nossos “projetos” (leia-se “filhos”) que relaxar é um grande desafio. E, para relaxar, deixo aqui o link do incrível texto do Antonio Prata sobre um pai que parecia não estar nem aí para universidades de pais…

Denise Gallo e Renata Petrovic são sócias da Uma a Uma.


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Ele é gato, inteligente, poderoso. Marido sexy e pai carinhoso. Praticamente o Brad Pitt da política. Vai gerando um fascínio que nunca se viu antes.

O empenho da mídia em fazer de Obama um herói do seu tempo, convenhamos, não tem atrapalhado… Só aquela foto dele pegando onda no Havaí, antes da eleição, valeu por uns 10 debates com bom desempenho. Seu talento para utilizar o aparato midiático também não é pouca coisa. Craque. Enquanto isso, nós, ávidos consumidores de imagens, com uma queda por personagens que vão salvar o mundo, vamos contribuindo para aumentar os recordes de audiência que cercam tudo o que novo Presidente faz.

Noto que os homens já estão preocupados com o encanto que Obama vem provocando nas mulheres. Outro dia li um artigo do embaixador britânico em Portugal, reclamando: “…meus caros leitores, este novo Presidente eleito está a provocar-me problemas gravíssimos. Ele está a estabelecer um padrão tão alto que, confesso, estou a ter alguma dificuldade em atingi-lo. Já estão a surgir sintomas preocupantes do meu complexo de inferioridade – ontem à noite menti sobre a minha altura, para mostrar que sou igual ao super-homem Barack…”.

Uma preocupação que tem fundamento. Inclusive porque o “super-homem Barack” parece estar firmemente empenhado em fazer crescer sua já expressiva popularidade entre as mulheres. Como se não bastasse tanto carisma e tanta bossa (olha a ginga desse cheek to cheek), Obama escolheu para assinar, como a primeira lei de seu mandato, a que iguala os salários entre homens e mulheres. Incrível? Só bola dentro… De marketing-to-women esse entende!

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Denise Gallo e Renata Petrovic são sócias da Uma a Uma


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O consumidor está cauteloso. O sentimento de insegurança causado pela crise financeira mundial, vai, aos poucos, afetando os planos de consumo das famílias. Embora a FGV aponte para uma melhora no indicador que mede a confiança do consumidor brasileiro na economia no mês de janeiro, o mesmo levantamento mostra que cresceu a parcela daqueles que pretendem gastar menos com bens duráveis. Desobedientes! O presidente Lula mandou todo mundo consumir e até nos ameaçou com seu raciocínio macroeconômico: se o trabalhador parar de consumir porque está com medo de ser mandado embora, aí é que ele vai ser mandado embora, porque o consumo diminui, a economia desaquece e o desemprego cresce. Ou seja: todos às compras! Já! Se não gastar, você será demitido e a culpa vai ser sua!

Nos EUA, a preocupação é intensa. E deve ter ficado ainda mais, depois do anúncio do corte de 75 mil vagas, feito ontem – em apenas um dia – por multinacionais americanas e européias. Nos próximos dias, serão divulgados os novos indicadores de confiança do consumidor americano (o de dezembro foi o mais baixo da história). Mas, as mulheres, comandantes do consumo, já estão dando sinais de que não estão para brincadeira. Elas estão segurando as rédeas e tomando conta do orçamento. Pesquisa feita pela consultoria de varejo Miller Zell mostrou que as mulheres estão agindo (e mais do que os homens): 68% estão gastando menos em restaurantes, 50% trocaram mercearias sofisticadas por redes que oferecem descontos, 87% estão trocando de marcas, para gastar menos.

Cautelosas, responsáveis e… early adopters! Sim, elas estão super sintonizadas com a mais nova moda da estação: a vida simples. A simplicidade é tendência, os analistas já avisaram. Está até na capa da revista Época: “Foi-se a era do desperdício. Nasce um novo capitalismo, inspirado numa vida mais frugal, mais barata – e mais feliz”.

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Boa notícia, né? Nasceu o novo capitalismo! E nele, as pessoas são menos consumistas, passam mais tempo com os amigos, aprenderam a viver com menos. Menos ganância, menos ansiedade, mais sossego. O meio-ambiente agradece, nossos filhos também. Que lindo! E as marcas, nesse novo capitalismo? Seguirão esta tendência? A Apple deixará de lançar produtos que provocam filas de espera? A Prada fará apenas uma coleção por ano, simplezinha e acessível? A Philips lançará uma grande campanha para que os clientes usem suas TV’s antigas por mais tempo? A Nike nos avisará que não há necessidade de tantos acessórios para correr no parque? Realmente, seria um alívio! Seria…

A primeira providência para quem quer embarcar nesta tendência: desligar a TV e passar longe da banca de revistas. É claro, pois como seria possível parar de desejar as coisas vendo TV ou folheando revistas? A vida simples das revistas é cheia de charme e estilo. Não é para qualquer um. Aliás, não é simples.

Vamos começar pela capa da própria Época: uma paisagen bucólica, um céu azul a perder de vista, uma bicicleta. Agora olhe pela sua janela. Viu como a simplicidade não é assim tão simples? A coisa toda tem que ter estilo. Não é só desencanar e pronto. Demanda dedicação e, por assim dizer… dinheiro para consumir a vida simples. Por isso existem revistas especializadas em nos ensinar a ser simples.

A Real Simple, por exemplo. Uma revista americana, linda, cujo slogan é: life made easier. Já vou avisando: pula a primeira página, para não se confundir. Nela, um anúncio de página dupla mostra, de um lado, um moço pescando num barquinho (simples) e, do outro, o HUMMER H3 que o levou até lá (muito simples). Ou seja, para desfrutar dessa vida simples, é preciso ter ganho muito bônus com a especulação financeira… No mais, a revista ensina a organizar closets, curtir a bagunça das crianças, viver com qualidade. Dê uma olhada nas imagens e veja quanta simplicidade.

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A vida simples também é uma marca. Um estilo de vida que vai sendo propagado por imagens idealizadas, marcas descoladas, produtos caros, desejos. Essa é a real tendência. Afinal, o Lula mandou: é preciso consumir!

Denise Gallo e Renata Petrovic são sócias da Uma a Uma


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- Amor, para onde a gente vai no Reveillon?
- Que tal Bahia? Foi tão bom ano passado!
- De novo? Tanto lugar pra conhecer…
- Pensou em algum?
- Hummm. A gente podia ir para Fernando de Noronha. Costa Rica também seria legal. Chapada Diamantina? Bom, mas também com preço de Reveillon, dá para passar uma semana em Paris!

Pronto. Angústia instalada. O casal, que estaria feliz da vida naquela mesma pousada, pedindo aquele mesmo bolinho de peixe e curtindo aquela mesma praia, agora se vê diante de tantas opções possíveis que, a esta altura, a viagem já virou o “Projeto Reveillon 2008/2009”, com pesquisas, cronograma e reuniões semanais de atualização.

Eles acabam de ser picados pelo poderoso mosquito “opções-proliferantis” da família dos pertubadores “e-se-tiver-uma-alternativa-melhor?” Todo mundo conhece, principalmente as mulheres! Qualquer pessoa que precisou escolher uma câmera digital, um plano médico ou até mesmo uma calça jeans na última década, já viu este mosquito de perto.

Em seu livro “O paradoxo das escolhas”, o sociólogo Barry Scwartz explica que à medida em que a variedade de escolhas aumenta muito, como acontece em nossa cultura de consumo, os aspectos negativos de haver um número infinito de opções também aumentam, gradativamente, até nos sufocar.

E para nos deixar bem sufocados, TUDO é escolha, neste mundo contemporâneo. Além de produtos e serviços, um amplo leque de modos de ser, de pensar e de agir, está à disposição de quem quer inventar-se e reinventar-se. Esta é a mensagem que pipoca por todos os lados. Da medicina à moda, da auto-ajuda à alimentação, infinitas são as receitas para o sucesso, o bem-estar, a beleza, a saúde, a felicidade. E quem diz o que é sucesso, bem-estar, beleza, saúde e felicidade? Este é o problema: os mesmos que oferecem as receitas.

A necessidade de escolher o tempo todo, entre tantas opções, cujos “ciclos de vida” são cada vez mais curtos, é uma abundante fonte de ansiedade. Nosso presente, e agora também nosso futuro (para quem assistiu “O Segredo”), estão em nossas mãos. É a carga pesada do que um dia se chamou liberdade de escolha. É sempre bom lembrar, no entanto, que escolher não escolher também pode ser uma escolha. Mas aí, é melhor nem entrar no shopping…

Denise Gallo e Renata Petrovic são sócias da Uma a Uma.


Era um domingo ensolarado e fomos passear no zoológico. Diversão garantida para quem é criança. Eu, pessoalmente, me sinto bem melancólica quando vejo aqueles animais presos e entediados, com suas vidinhas bestas enjauladas. Encontrei uma amiga antiga, que também passeava com seus filhos e, entre uma onça cansada aqui, uma fila de sorvete ali e um berro para chamar filho acolá, conversamos sobre a vida.

Os filhos estão crescendo e vão nos dando esta nova dimensão do passar do tempo. Minha amiga, perto, pertíssimo dos 40 anos, a certa altura, desabafou: “não sei se estou preparada para envelhecer”. Fui obrigada a lembrá-la que o tempo não vai parar de passar, só porque ela não se sente preparada para lidar com seus efeitos. Ou defeitos, em nossa cultura.

Pensamos juntas sobre esta estranha e perversa equação contemporânea: viver mais, de um lado; não envelhecer, de outro. A juventude é o maior valor, mas, cada vez mais, as pessoas serão velhas por muito mais tempo do que serão jovens. Se não acharmos isto bom, estamos lascados.

Hoje estava lendo a revista Serafina, da Folha de São Paulo, e voltei a pensar no assunto. A maior parte da matérias trata de gente. Nesta edição, são 13 perfis, entrevistas e reportagens sobre pessoas. Mais da metade, mulheres e, entre estas, quase todas com mais de 50 anos. Ana Jobim, 53, Denise Dummont, 53, Helena Ramos, 55, Rosa Lemos de Sá, por aí, Maria Bethânia, 62. Descontados os coloridos poéticos que as revistas adoram fazer em “perfis do bem”, a leitura mostra que não há, necessariamente, um “auge” na vida. Isso, é claro, se nos reeducarmos para desconstruir a associação auge/juventude. As mulheres entrevistadas já conversaram com o capeta. Tiveram muitas perdas. Mas vivem emaranhadas numa trama de recolhimento e expansão, à frente de projetos vivos, com os quais se misturam e misturam suas histórias de vida.

Não há como não notar o contraste entre estas reportagens e as páginas das publicidades com as quais são intercaladas. Coincidentemente, a revista tem 13 publicidades que mostram gente. Quase todas mulheres e… TODAS jovens!

Não sei não, mas quando me lembro dos movimentos do corpo da Bethânia no palco, do seu cabelo comprido e grisalho, das suas mãos e seu rosto marcados, da intensidade e da harmonia de sua presença, não dá para não perguntar o óbvio: estamos buscando qualidade e beleza nos lugares certos?

Denise Gallo e Renata Petrovic são sócias da Uma a Uma.


Final de semana num hotel-fazenda nos arredores de São Paulo. Mas pode também chamar de aula livre sobre o curioso projeto pedagógico da burguesia paulistana.

Estar diante de famílias nunca vistas, com a excessiva “intimidade” que um “hotel-fazenda-família” propõe, e poder observar as dinâmicas, as tensões e as manias dos outros, é um exercício praticamente irresistível para nós, curiosos.

Evidentemente, jamais devemos perder de vista que, aos olhos dos outros, os estranhos somos nós. Mas isto é um outro assunto. Vamos falar sobre a mini investigação fenomenológica que se deu.

A fenomenologia é um caminho para se estudar todo e qualquer fenômeno que se apresente à nossa mente. O primeiro passo, proposto por este método, é adotar uma atitude contemplativa em relação ao objeto de estudo. Olhar, pura e simplesmente. Sem visões pré-estabelecidas, sem julgamentos anteriores. Apenas olhar e deixar que o fenômeno se apresente. Que “fale” por si. Neste caso, que berre!

A pequena, porém significativa, amostra que compôs meu “estudo” é muito afeita ao volume elevado da voz. Mas esta não é, nem de longe, a característica que mais se destacou em minha breve investigação.

Foi possível notar uma atitude intensamente super-protetora nos pais que estavam ali. As crianças jamais ficavam sozinhas, simplesmente brincando entre si. Havia sempre a presença de um adulto disposto a propor atividades “estimulantes”, pronto para interferir nas pequenas e corriqueiras crises por um brinquedo, falando frases “educativas” do tipo “agora é a vez dela”. Dirigindo a cena, basicamente. Embora com a melhor das intenções, os pais simplesmente não dão a chance para que as crianças “se virem” um pouco (crianças, neste caso, que deixaram de ser bebês há uns 3 ou 4 anos).

A palavra mais fartamente pronunciada por pais, mães e babás, naqueles dois dias, foi “cuidado!”

Numa das manhãs, estávamos todos no meio da atividade recreativa matinal de dar comida aos bichos (que não sei como não explodem, na alta temporada), e tamanha foi a intensidade da advertência proferida pela mãe, que olhei assustada para trás, já me prontificando a ajudar a criança diante do perigo, que parecia iminente.

Pensei que pudesse ser uma cobra, ou que um tigre tivesse se materializado naquele gramado bem cuidado, ou, até, que o lobo-mau tivesse pulado para fora do livro que estava na brinquedoteca. Mas não, o comando, quase histérico, era dirigido para uma “perigosíssima” poça enlameada. Poderia, também, segundo tais critérios, ser para uma rampinha escorregadia, uma formiga, uma vontade súbita de sair correndo, coisas assim. Os pequenos exploradores sofrem. Não se machucam, não se sujam, mas sofrem…

O ponto alto, e mais representativo da atitude que descrevo aqui, veio de uma mãe que levou, para seus gêmeos de 3 anos, todas as refeições prontas de casa! Levou até a sobremesa (potinhos de Danoninho), que ela deve considerar mais “seguros” do que aquelas frutas naturais, cuja procedência desconhece.

Os clubes, as praças, os shoppings de São Paulo estão repletos destas mães e destes pais. Não só deles, é claro. Mas este parece ser um padrão bastante freqüente.

É justamente em uma via, não oposta, talvez em bifurcação a esta, que vemos crescer nas pesquisas a expressão de um desejo por valores maternos mais leves, livres e soltos. Mães que abrem mão do excessivo controle e que acolhem imprevistos e imperfeições com maior boa-vontade. Um pouco menos de assepsia, um pouco mais de sujeira. Mas, todo mundo, é claro, sempre querendo acertar.

Denise Gallo e Renata Petrovic são sócias da Uma a Uma.


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O consumo de pornografia cresceu entre as mulheres. Cientistas e analistas do comportamento humano saem à busca de explicações. Uns constatam que, sim, as mulheres se excitam com cenas de sexo explícito, e pensar o contrário seria uma imposição cultural. Outros dizem que pode ser, mas que é preciso que haja enredo, clima, porque mulher gosta mesmo é de romance. Há também aqueles que afirmam que, diferentemente dos homens, mulheres consomem pornografia apenas para uso “a dois”. Difícil fazer afirmações absolutas nesse campo. O fato é que o consumo feminino de DVD’s, canais adultos, sex shops e toda a parafernália erótica disponível no circuito “sexo-show”, vem crescendo com furor.

Nos canais a cabo prevalece a exibição da pornografia ginecológica, em que o homem comanda o jogo e a mulher praticamente não existe. O corpo feminino é um conjunto de orifícios desconexos. Uma perna para o lado, outra perna para cima. Uma mão apoia o peso do corpo, a outra segura um pênis. A boca abocanha um outro pênis, ao mesmo tempo em que emite gritos ritmados. As costas arqueadas, o pescoço contorcido. E ainda precisa olhar para a câmera, para que o telespectador possa se sentir incluído naquela cena cubista, com muito sexo e pouca vida.

Cardápio de sexo
Atentos à audiência feminina, no entanto, os canais abrem espaço para programas produzidos “especialmente para mulheres”. Neles, filmes eróticos oferecem o pacote das “fantasias-padrão” e são costurados por dicas e lições preciosas: a personal sex trainer ensina a posição “esteio”, muito praticada nos filmes, que garante o máximo prazer. Uma outra especialista chama atenção para os poderes do olhar e ensina como é importante abaixar um pouco o queixo e fitar o homem por 3 a 5 segundos para conseguir um efeito altamente sedutor. Há também as recomendações e acessórios para quem quiser, uma hora dessas, viver uma experiência sadomasoquista.

Boas pra quem?
Incrível! Até a pornografia, quando é para a mulher, tem que ser embalada por algum tipo de ensinamento. Formando mulheres boas de cama! Boas para quem? A combinação do espetáculo performático dos filmes com o “faça você mesmo” das dicas, projeta o erotismo para algum lugar distante. Não sei bem para onde, mas, certamente, nesse lugar haverá uma sex shop.

Já faz tempo que o erotismo foi parar nas prateleiras e a performance espetacular é o mínimo que se espera. Por todos os lados na mídia, corpos inteiros ou em partes se fundem na imagem de um gozo eufórico e estridente.

Para encontrar um lugar neste palco, é preciso se graduar no uso do olhar, nas técnicas para massagear, na forma de apoiar os pés, no tom de voz a adotar. Na vida real, contudo, a fusão dos corpos segue regida pelas delícias e aflições que pertencem às intimidades e o mundo interno feminino é bem mais rico do que todo este enredo.


De uns tempos pra cá, tem se tornado freqüente, na mídia impressa, a publicação de reportagens que denunciam a busca incessante pela beleza e pela juventude. Após décadas de catequese sobre os poderes da tecnologia na manipulação da aparência (sempre colada à disseminação do padrão de beleza Barbie) agora parece que a mídia resolveu aliviar. Mas, olhando de perto, só parece.

É o que mostra a leitura da reportagem sobre a arte de envelhecer, publicada pela Época, comentada aqui no Blog. Também é o que mostra a leitura da reportagem sobre cirurgia plástica, publicada pela Veja. O que, de início, parece uma reflexão crítica, mostra-se, ao final, um estratégico reforço à não-aceitação do envelhecimento natural. Afinal, imagine o que seria da indústria da beleza se as pessoas passassem a aceitar as marcas do tempo em seus corpos…

O texto de Veja começa observando, com estranhamento, que os rostos velhos estão desaparecendo das grandes cidades, dando lugar a seres de aparência lisa, lustrosa, esticada. Por meio dos comentários feitos por um menino francês a uma escritora americana, a revista chega até a afirmar, generosamente, que não há nada de errado com os velhos que parecem velhos.

Mas, após uma breve crítica ao sumiço das rugas da paisagem urbana, a reportagem de Veja se apruma e dedica as páginas seguintes ao que mais sabe fazer: (1) lançar novas patologias, para as quais, evidentemente, sempre haverá antidepressivos e antipsicóticos adequados e (2) ensinar o leitor a consumir o que o mercado oferece, já que não consumir parece estar totalmente fora de questão.

Com o distúrbio devidamente mapeado e exemplificado com aberrações do tipo Mickey Rourke e Donatella Versace, a revista, então, ensina a “entrar na faca e fazer bem à alma” e aponta Demi Moore como “um dos melhores exemplos de como é possível envelhecer bem”. Como, hein, cara-pálida-esticada? A matéria prossegue: com “liftings, injeções de colágeno, próteses mamárias, lipoaspiração nas coxas, quadris e abdomen, clareamento dos dentes…” Ufa! E ela tem só 45 anos!

Assim, de um lado, os malucos, doentes, que fazem 9 cirurgias plásticas no nariz, portadores do agora batizado “transtorno dismórfico corporal” (já imaginou se, depois da reportagem, os doentes resolverem tirar licença para se tratar? Bem, não seria possível, porque as novelas teriam que sair do ar por falta de elenco!). De outro lado, as pessoas “normais”, que recorrem a “médicos sérios” para cuidar da auto-estima, já que, segundo a revista, “os benefícios psicológicos de uma cirurgia plástica, quando bem feita e bem indicada, são mesmo inegáveis”.

Já aqueles – esquisitos – que querem viver bastante e nem conseguem se imaginar numa mesa de operação para “corrigir” o que está “errado”, o negócio é esperar pelo novo distúrbio, que acabará sendo lançado para dar conta dessa bizarrice de aceitar rugas, cabelos brancos e flacidez. Transtorno da aceitação corporal! Uma hora dessas, ele também será descrito pelos psiquiatras.

Denise Gallo e Renata Petrovic são sócias da Uma a Uma.


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O seriado “Sex and the City” era muito divertido. O filme também é. As razões todo mundo já conhece: moda, humor, consumo, relacionamentos, consumo, amizade entre mulheres, lugares descolados, consumo, sexo, consumo e consumo.

No início da série, muitas eram as promessas. A mais importante delas, assim parecia, era retratar uma geração de mulheres independentes, solteiras, sexualmente livres, profissionais bem-sucedidas, que vivem bem sozinhas e não vêem o casamento e a família como as únicas saídas para a felicidade. Mulheres que gostam de romance e que, na falta de um par que valha a pena, aproveitam a vida e cultivam outros laços afetivos. Em resumo, o seriado parecia anunciar a solteirice como uma modalidade de vida, como outras, e não como um fardo do qual se deve fugir como o diabo foge da cruz. Parecia libertador.

Só parecia, evidentemente. Não teve jeito. O final feliz pastoso, recorrente em nossa cultura, passou por cima das intenções libertárias feito um trator e colocou as 4 (as 4!!!) personagens naquele lugar onde as mulheres verdadeiramente bem-sucedidas devem estar: ao lado de seus homens. Uma, workaholic até o último fio de cabelo, se descamba para o Brooklyn para sorver o ideal de vida que impera no nosso imaginário: família, casa, cachorro e banho de esguicho no jardim. A outra, furacão de desejo e adepta do sexo sem compromisso, estaciona sua libido desenfreada, resolve assentar o facho e comportar-se “direito”, depois de ter sido punida com um câncer. A fofinha Charlotte, bom, nem se fala, mas essa era mesmo uma romântica inveterada. E a “de-tudo-um-pouco” Carrie acaba salva pelo príncipe, no alto de uma ponte sobre o Sena. Que desânimo, não dava para fazer nada diferente disso? Pelo menos com uma, uminha, das personagens?

Aí chega o filme. Oba. Vamos ver o que acontece. Quem sabe agora será diferente? Quem sabe poderemos, finalmente, encontrar novos significados para o secular “happy end” reservado às mulheres? Não vou contar o filme, para não estragar a surpresa (surpresa?) de quem ainda não viu. Mas, aqueles que gostariam de ver a identidade feminina descolada do “encontrei-consegui-casei”, podem tirar o cavalinho da chuva.

Denise Gallo e Renata Petrovic são sócias da Uma a Uma.


Mulheres gostam de homens charmosos, inteligentes, bem-humorados, atenciosos, um pouco cafajestes, bem-sucedidos e carinhosos. Ainda bem que o verdadeiro amor da vida das mulheres é bem mais básico. Na verdade, um pretinho básico: o CHOCOLATE.

Não faltam pesquisas que comprovem esta longa e fiel relação de amor. Algumas afirmam que as mulheres gostam mais de chocolate do que de sexo. O que? De sexo? Será possível? É o que dizem as pesquisas… Espera um pouco: não foi também uma pesquisa que, há algum tempo atrás, afirmou que as mulheres topavam ficar 15 meses sem sexo em troca de um guarda-roupa novo? Sim, foi. O que está acontecendo com as pesquisas? Ou melhor, o que está acontecendo com as mulheres? Mas também não sei se a pergunta que foi feita deixava claro um detalhe crucial: sexo com quem, né? George Clooney? Jude Law? Clive Owen? Bom, isso não se sabe. Mas parece que Mr. Wonka furaria a fila fácil, fácil.

Recente estudo, feito pela Unilever, ouviu 3,5 mil mulheres entre 18 e 35 anos, em 13 países, e descobriu que o chocolate é o prazer mais irresistível que existe. Entre as brasileiras, então, a loucura é total: 84% das participantes colocam o chocolate no topo da lista. O sexo, pobrezinho, aparece em quinto lugar!!! Até buquê de flores vem antes.

Segundo especialistas, as sensações provocadas pelo sexo são muito semelhantes ao que se sente saboreando um chocolate. O chocolate possui propriedades calmantes e libera o hormônio endorfina, que ajuda a elevar a auto-estima, traz sensação de bem-estar e diminui a ansiedade. Tudo muito parecido com o que ocorre no organismo, no auge do prazer sexual. Ou seja, o mesmo efeito, algumas calorias a mais e muita dor-de-cabeça a menos.

As inglesas também perdem a razão diante de um singelo pedaço de cacau evoluído. Uma pesquisa realizada nas ruas de Londres, mostrou que 45% das mulheres abordadas forneceram suas senhas de e-mail a estranhos, felizes da vida, em troca de uma barra de chocolate. Apenas 10% dos homens fizeram o mesmo.

Uma outra pesquisa, feita com mulheres apaixonadas por blogs, constatou que elas gostam tanto, tanto de pertencer à blogosfera que abririam mão de ler jornais e revistas (43%), de seus iPods (42%) e até de beber álcool (55%) para continuar escrevendo ou lendo blogs. Mas, quando mexe com o chocolate, a coisa muda de figura… só 20% topariam fazer a troca.

Mas como saciar esta paixão louca? Se esbaldar de tanto comer chocolate, jogar fora todos os espelhos da casa e aceitar as formas rechonchudas? Como este desprendimento parece ser impossível para as mulheres, elas seguem tentando resolver a equação comer/sofrer.

Enquanto isso, já que é para conquistar as mulheres, este objeto de desejo e culpa amplia seus domínios e avança para novos territórios: xampus, sabonetes e até desodorantes agora querem ser chocolate. Nos oferecem estímulos sensoriais que remetem ao mesmo prazer, enganam nosso cérebro, mas pelo menos não engordam. Algo como o cigarro apagado na boca do ex-fumante. Tomara que, no desespero, as mulheres não saiam por aí bebendo xampu ou comendo barras de sabonete.

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Denise Gallo e Renata Petrovic são sócias da Uma a Uma.


O que é a arte de envelhecer? Reportagem publicada na revista Época da última semana aborda o tema, aparentemente com a proposta de incentivar as mulheres a aceitarem a “queda-do-império-romano” como uma passagem natural, que deve ser acolhida, já que não pode ser abolida (pense bem: a única forma de não ficar velho é morrer jovem, certo? E isso ninguém quer).

A revista explica de onde vem a obsessão contemporânea pela juventude, dá dicas para envelhecer com qualidade de vida, aponta os exageros cometidos pelos que querem camuflar a idade, enaltece os corajosos que toleram suas próprias rugas. Bacana!

Mas, quando o assunto é o invólucro que nos embala – a pele, este tecido teimoso, insubordinado, folgado e egocentrado – aí, não há matéria bem intencionada que resista. Por isso, mesmo cheia de boas intenções, a reportagem chega lá: “novas técnicas de rejuvenescimento permitem manter uma aparência mais jovem sem comprometer a harmonia do rosto e do corpo”. Graças a estas técnicas – olha que boa notícia! – “a cirurgia plástica pode ser postergada”. Postergada? Já é tão óbvio que todo mundo vai entrar na faca mais cedo ou mais tarde, que o máximo que se pode fazer é postergar? Hummm, entendo.

E, realmente, para quem não quer sua epiderme fora de moda, não faltam opções malucas com nomes bizarros: “gel preenchedor de hidróxido de apatita”, “preenchimento com colágeno de porco”, “tratamento 4-D”, “lifting tridimensional”. Sim, estão todas lá na revista. Uma loucura! Em uma lista assim, “Botox” fica até parecendo coisa de “velho”. E a reportagem termina dessa forma: com um guia para manter a aparência jovem…

Vemos, no entanto, que, como em muitos outras situações da vida, lidar com a ameaça do fantasma é pior do que o fantasma em pessoa. As pesquisas mostram que a mulher de 40 sofre mais com a iminência da perda da aparência jovem do que a mulher de 60, quando o espelho já escancarou a realidade inexorável. Segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica, quase 60% de todos os procedimentos feitos no país concentram-se na faixa etária de 21 a 50 anos. Nos EUA, 72% dos procedimentos cosméticos, cirúrgicos e não cirúrgicos, são feitos antes dos 50. Depois dos 50, parece que elas ficam mais interessadas em preencher a agenda do que os sulcos. Querem cuidar da aparência com mais equilíbrio e mais aceitação. De acordo com uma pesquisa online realizada pela empresa americana Frank About Women com 1.562 mulheres, 18% das que têm entre 35-39 acreditam que envelhecer bem é parecer 10 anos mais jovem. Entre as mulheres acima de 60 anos, este percentual é de apenas 9%.

Assim, quando o fantasma-hóspede chega, portando sua bagagem de rugas, sua valise de flacidez e sua necessaire de manchas de pele, uma expressiva parcela de mulheres parece disposta a convidá-lo para um café, ou melhor, para um champagne e a curtir sua companhia. Querem cuidar da aparência, mas sem enxotar o “fantasma” com privações, seringas e facões.

A Uma a Uma acaba de concluir um estudo sobre mulheres de 50 a 70 anos, um segmento que merece ser cada vez mais compreendido, seja pela importância sócio-econômica que adquire, seja pela complexidade das transformações que acontecem no corpo e na mente da mulher nesta etapa da vida. Voltaremos a este assunto aqui no blog.

Denise Gallo e Renata Petrovic são sócias da Uma a Uma.


Algo me diz que chegará o dia em que teremos saudades das placas de rua extintas pelo Cidade Limpa. Também nos lembraremos, com certa nostalgia, dos breaks comerciais que hoje interrompem nossos programas de TV favoritos. Chegaremos à conclusão de que éramos felizes e não sabíamos quando a mocinha do telemarketing nos acordava sábado de manhã para saber se “estávamos tendo” interesse em uma incrível promoção de minutos telefônicos a cinco centavos.

Serão lembranças de um tempo em que ainda podíamos identificar quando alguém estava tentando nos vender alguma coisa. Ou melhor, achávamos que podíamos, já que, cá entre nós, quase tudo em nossas vidas já está colonizado pelos incríveis poderes do marketing. De qualquer forma, há um quê de autonomia no ato de mudar de canal, desligar o telefone ou clicar no botão “fechar”. Mas não adianta, isto será passado: o paleolítico da comunicação, a pedra lascada da publicidade, o neanderthal do homem de marketing. Em suma: coisa de amador. E os sinais da nova era já vêm ganhando espaço.

Recentemente, folheando revistas ou assistindo à TV, dei de cara com conhecidos meus estrelando comerciais que tentam, tentam e tentam, não parecer comerciais. Tudo muito “natural”. Pessoas “de verdade”, em situações “de verdade”, usando “de verdade” produtos e marcas, que, assim, parecem boas “de verdade”. Deve funcionar, afinal ninguém mais acredita que a Xuxa use creme Monange.

No mundo da comunicação “evoluída”, você abre uma revista e se diverte com o mico de duas celebridades que usavam o mesmo vestido em uma festa. O que você não sabe, mas vai aprender com o tempo, é que aquilo tudo foi armado justamente para gerar notícia e chamar sua atenção para o tal vestido que – sinsalabin! – tem como estampa a logomarca de um xampu.

Outro exemplo: você está conversando, despreocupadamente, com um colega de faculdade, batendo papo sobre o que fez ontem à noite quando chegou em casa ou o que pretende fazer nas próximas férias. O que você nem imagina, mas vai imaginar com o tempo, é que o cara está anotando tudo em sua mente atenta, para relatar à empresa para a qual presta serviço como caçador de tendências (uma espécie de pesquisador disfarçado).

Este amigo, ou outro qualquer, pode também sugerir que você vá a alguma festa legal ou que experimente algum suco gostoso. Normal, amigos fazem isso. O que você nem sonha, mas sonhará com o tempo, é que trata-se de uma ação de boca-a-boca planejada, justamente para que tudo pareça muito verdadeiro. Boca-a-boca, aliás, no qual as mulheres são especialistas, desde que Eva recomendou a Adão que experimentasse a maçã.

Que mecanismos o ser humano vai precisar desenvolver para dar conta de tanta “autenticidade”? Será que nos tornaremos todos cínicos e não acreditaremos em mais nada? Tipo: você está saindo de casa e sua mãe manda o clássico:

- Filha, leva um casaquinho para não tomar friagem!

Aí você, um ser consumidor da nova era, conclui:

- Hummm… bem que eu desconfiava que a mamãe era agente de buzz da malharia da dona Zezé!

Mas decide não comentar nada, já que ela não percebeu que a conversa que você puxou ontem ao jantar, sobre previdência privada, também era uma encomenda do seu cliente. E você sai apressada para o café com as amigas, levando a lista de temas no bolso e o casaquinho na bolsa. Afinal, mãe é mãe.