Lembranças e Lembrancinhas

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Alguém se lembra de como eram as festinhas de crianças na era pré-buffet? Aquelas, em casa mesmo, em que os adultos ficavam conversando na sala, enquanto as crianças “se acabavam” de brincar por todos os cantos? Sozinhas ou entre si, sem monitores gritalhões uniformizados e sem roteiros de brincadeiras pré-estabelecidos. Nada de trens que passeiam pelo teto, helicópteros suspensos ou filas para entrar em geringonças à la Disneyworld.

Ninguém perguntava seu nome quando você chegava, os presentes eram entregues ao próprio aniversariante e não existiam pantufinhas especiais para proteger os pés brincalhões.

Para comer, salgadinhos da vovó, sanduichinhos de pão Pullman cortadinhos em quatro, brigadeiros, meio amassadinhos, que a própria criança aniversariante ajudara a enrolar.

Na hora do parabéns, não havia um jingle especial para reunir os convidados. Alguém berrava para chamar todo mundo e um tio desavisado, lá no canto, recebia a ordem: “apaga a luz!”. E a lembrancinha? Quando tinha, era uma “lembrancinha” mesmo, com a qual os mini-convidados se deliciariam por um bom tempo. Às vezes, tinha um teatrinho de fantoches, mas nada que se assemelhe às mega-produções que vemos hoje em dia.

Pois é, mudou. A lógica da conveniência, da terceirização, das especialidades, fez com que toda uma indústria se formasse. Certo, todos trabalhamos feito condenados, não temos mais tempo para organizar festinhas, e, além disto, as avós de nossos filhos estão cheias de atividades, no auge da sua “melhor idade”, e têm mais o que fazer do que ficar batendo bolo.

Mas, isto não é tudo. Quando surge uma nova categoria de serviço, ela precisa se atualizar, surpreender e encantar o cliente. Por isto, the show must go on. A lembrancinha da semana passada já não deixa mais a criança boquiaberta. O teatrinho precisa incorporar novas referências da TV. O bolo precisa, cada vez mais, reproduzir os personagens à perfeição. Afinal, a festa custou 5 mil reais aos pais!

Normal. Sociedade de consumo é isso. Novos produtos e serviços não cessam de surgir e nossos padrões de exigência não param de se elevar. E, no afã de satisfazer nossos filhos, queremos oferecer tudo o que há de mais moderno e elaborado.

Mas não eram as crianças que conseguiam transformar um simples galhinho em uma espada de príncipe, com a qual brincavam por horas? Ou que pegavam um pano velho, que, puxa daqui, puxa dali, virava um vestido de fada? Qual o espaço para a imaginação num mundo em que tudo vem pronto? Poderíamos discutir os valores contemporâneos de educação, a dificuldade de impor limites, a culpa por trabalhar demais ou mesmo a ansiedade de consumo dos próprios pais. Mas vamos deixar isto para o blog da Rosely Sayão que, aliás, é imperdível.

De nosso lado, notamos que existe um universo de pais e mães que, embora tenham, sim, o tempo muito escasso e sejam potenciais clientes de serviços facilitadores, se interessam pelo resgate de uma “infância mais infantil”. Para este público, decerto, faltam alternativas. Mães empreendedoras do artigo de ontem, está aí um interessante nicho a ser explorado.

Denise Gallo e Renata Petrovic são sócias da Uma a Uma.

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