Um Almoço Etnográfico
É muito interessante para nós, profissionais de marketing e comunicação, que tanto precisamos desenvolver a habilidade de observar e traduzir o mundo o tempo todo, sair por aí de olhos e ouvidos verdadeiramente abertos, para saber o que acontece.
Há algum tempo atrás, ouvi o consultor Jayme Troiano, em entrevista a uma rádio de notícias, cunhar o termo “voyeur social”, justamente apontando para esta prática, que pode ser muito produtiva, seja para encontrar respostas ou, ao menos, para elaborar perguntas, novos pontos de partida para novas investigações.
Foi desta forma, como voyeur social, que me senti hoje durante o almoço, num restaurante na Vila Madalena. Vamos aos resultados do meu rápido almoço “etnográfico”. Amostra: 11 mesas ocupadas, 19 pessoas no total.
1. Duas mesas de 4 lugares, posicionadas lado a lado. Uma com três moças de aproximadamente 30 anos, roupas e acessórios bastante atuais. A outra, ocupada por 2 rapazes, também na faixa dos 30 anos, de estilo moderninho. Curioso que os dois rapazes, numa mesa retangular de 4 lugares, escolheram se posicionar, não frente a frente, como é mais comum, mas em diagonal, no único ponto em que poderiam ficar o mais distante possível um do outro. Falaram bem pouco durante o almoço e, quando falaram, eram frases rápidas e respostas monossilábicas. Aquela atitude “viemos aqui para comer e não para conversar” e “não precisa chegar tão perto”. Bom, já as moças, tagarelavam sem parar. Ora estavam rindo, divertindo-se muito. Ora estavam sérias, compartilhando algum assunto nitidamente mais denso. Interessante como as mulheres têm a capacidade de migrar entre assuntos díspares com tanta desenvoltura. Os neurocientistas encontraram a explicação para isto nas conexões nervosas, que são mais numerosas no cérebro do sexo feminino.
2. Apenas duas mesas eram ocupadas por casais, jovens casais. Nas duas, quem pagou a conta foi o homem. Isto me fez lembrar do livro Os Homens são Necessários?, da jornalista americana Maureen Dowd. Nele, a autora comenta que, se as “feministas jurássicas” estremecem diante da possibilidade de não rachar a conta, as novas gerações não só ficam muito confortáveis com isto, mesmo sendo financeiramente independentes, como acreditam que o ato de pagar a conta, num primeiro encontro, é código essencial para definir se o homem está ou não imbuído de intenções sérias (nada mais anos 50; mas ela diz que, nos EUA, não por a mão no bolso é prática disseminada entre as novas gerações de mulheres).
3. Duas mesas eram ocupadas por mulheres sozinhas, aparentando aproximadamente 40 anos. Uma delas tinha um livro aberto ao lado do prato. A outra, assim que chegou, sacou da bolsa uma caneta e um caderninho de anotações, que deixou aberto, também ao lado do prato. Fiquei pensando, sem chegar a uma conclusão definitiva: tratava-se de um eficiente aproveitamento do tempo disponível, por mulheres extremamente ocupadas, que acham que almoçar sem fazer mais nada é bobagem? Ou aquele livro e aquele caderno funcionavam como uma espécie de tela de proteção, para não se sentirem fragilizadas por estarem ali sozinhas? De início, recusei esta hipótese, achando que não faria sentido tal insegurança em nossos dias. Mas tive que rever minha recusa, pois nenhuma das duas de fato leu ou escreveu durante todo o tempo em que as observei.
4. Na mesa à minha esquerda, duas moças falavam sobre como uma delas tinha conseguido encontrar um certo fulano pela Internet, para euforia da outra. Na mesa da direita, um moço interrompia a conversa com sua acompanhante, para dar instruções, pelo celular, para a ampliação de uma fotografia. Ao deduzir, pelos termos técnicos que utilizava, que ele era fotógrafo, me lembrei de uma entrevista que minha professora Lúcia Santaella deu à Revista Claudia, em que comentava como, nos dias atuais, temos fácil acesso à vida privada das pessoas em locais públicos, pela “ponte” feita através da tecnologia.
Enfim, para concluir:
1. voyeurismo social dá caldo;
2. devemos tomar cuidado com o que falamos fora de casa;
3. os restaurantes deveriam aumentar os espaços entre as mesas.
Denise Gallo e Renata Petrovic são sócias da Uma a Uma.
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Sérgio Gersosimo disse,
26 de Abril de 2007 @ 17:31
Interessante esse ensaio de voyeur social. Existe um tipo de pesquisa que, antigamente, chamava-se de “anedótica”, que consiste exatamente em observar as pessoas, relações e comportamentos. Acho interessante esse tipo de observação quando nos dispomos a observar pessoas de outra classe, fica muito mais difícil fazer hipóteses.
Abraços
Sérgio