Receita de Felicidade

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Há alguns anos, li o romance Ser Feliz, do escritor Will Ferguson (Companhia das Letras, 2003), cuja narrativa é, ao mesmo tempo, irônica e angustiante, engraçada e melancólica.

O livro trata de questões essenciais à nossa época, e tem tudo a ver com o universo feminino, já que, como sabemos, as mulheres bem que gostam de uma “receita de felicidade”.

Lembrei-me do livro recentemente porque ele é citado na introdução de Sobre a Felicidade – Ansiedade e Consumo na Era do Hipercapitalismo (Editora Alameda, 2005), da socióloga e filósofa Renata Salecl.

Ser Feliz conta a história de um editor nova-iorquino decadente, que recebe um manuscrito misterioso e resolve publicá-lo. Trata-se de um livro de auto-ajuda que, imediatamente, se transforma num estrondoso sucesso. Até aí, tudo bem. Um livro que fornece conselhos sobre como conseguir uma real satisfação na vida. Até aí, tudo bem também.

A diferença entre este livro e os outros bilhões que existem no mesmo gênero, contudo, é que este funciona! As pessoas que o lêem mudam de vida repentinamente. Elas simplificam o modo como se vestem, param de comprar maquiagem e cosméticos caros, renunciam à obsessão de mudar seus corpos com a ajuda da cirurgia plástica, cancelam suas inscrições nas academias de ginástica, desistem de seus carros e de outras possessões consumistas e, principalmente, abandonam os antigos empregos, deixando na porta de seus escritórios um aviso: “Fui pescar!” Com isto, elas atingem um grau de felicidade nunca antes experimentado.

A felicidade, então, começa a “contaminar” o mundo e vai “atingindo” as massas. Todos ficam relaxados, alegres, serenos e cheios de contentamento.

Como conseqüência, o capitalismo entra em colapso. As indústrias começam a falir, uma após a outra.

O editor, pressionado pelos lideres capitalistas, vai atrás do autor (um velho solitário, que vive num trailer, sabe que vai morrer em breve e decidiu fazer, para deixar de herança ao neto, uma espécie de colagem de todos os livros de auto-ajuda já escritos) para reverter a “catástrofe” que está em curso.

Tudo se resolve quando o velho homem é convencido a escrever um outro livro, menos “eficaz”. Desta forma, o “progresso” é retomado e todos podem viver “infelizes” para sempre.

Mas, pensando bem, seria mesmo um pouco chato, para as mulheres, viver sem desejar possuir mais nenhum sapato novo, nenhum perfume novo, nenhum iphone sequer! Felicidade?

Denise Gallo e Renata Petrovic são sócias da Uma a Uma.

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1 Comentário »

  1. Uma a Uma - inteligência de mercado no público feminino. » Evolution Evolui disse,

    25 de Junho de 2007 @ 18:27

    […] O mundo gostou da libertação (questionável ou não) proposta pelo discurso de Dove. A própria mobilização gerada por este discurso já nos aponta algum caminho. O que aconteceria se toda esta libertação virasse realidade é assunto para Will Ferguson, no livro Ser Feliz, sobre o qual já escrevemos aqui no blog. […]

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