
O Brasil tem o dobro de mulheres em cargos de alta gerência, se comparado aos países desenvolvidos, de acordo com pesquisa da consultoria Grant Thornton International, feita no início deste ano.
Por aqui, 42% dos cargos, neste nível, são ocupados por mulheres, ficando atrás apenas das Filipinas, no ranking mundial de distribuição de cargos de gerência entre homens e mulheres. Para se ter uma idéia, na Europa apenas 17% destes cargos são ocupados por executivas e nos EUA, apenas 23%.
Boa notícia? Sim e não.
O desempenho do Brasil, neste aspecto, certamente é superior ao dos países desenvolvidos. Uma possível explicação, está na facilidade e no baixo custo do auxílio doméstico, se comparado ao de países do primeiro mundo. Como já mencionamos aqui no blog, o aumento absoluto do número de empregadas domésticas no Brasil, segundo a socióloga Cristina Bruschini, da Fundação Carlos Chagas, foi de quase 200% entre 1970 e 1997. Embora não seja o caso de orgulhar-se disto, já que se trata de uma oferta de serviços diretamente ligada à enorme desigualdade social, este aspecto, muitas vezes, é o que viabiliza a carreira das mulheres, principalmente com a chegada dos filhos.
Sabemos, contudo, que tanto no Brasil quanto nos países desenvolvidos, as empresas perdem inúmeros talentos femininos todos os anos, muito mais do que perdem talentos masculinos.
Um levantamento recente da Catho mostrou que as mulheres ocupam apenas 10% dos cargos de presidência em empresas com mais de 1.500 funcionários. Nos EUA, atualmente, 25% das mulheres com MBA não estão trabalhando.
As executivas que optam por ter filhos vivenciam constantemente intensos conflitos, na tentativa de conciliar uma carreira em ascensão às novas demandas que surgem com a maternidade. A carga horária que precisam cumprir para manter a competitividade na escalada profissional, faz com que, muitas vezes, a mais ambiciosa das mulheres acabe percebendo a insanidade desta tarefa e decida priorizar a presença na vida dos filhos, numa vida mais equilibrada.
Não se trata de falta de ambição, muito pelo contrário, trata-se da impossibilidade de cumprir as exigências de todos os seus papéis com um mínimo de bem-estar. De acordo a pesquisa “Mães Contemporâneas”, realizada recentemente pelo Ibope, 68% das mães consideram difícil conciliar trabalho, maternidade e casamento.
Algumas mulheres que abandonam o trabalho conseguem retomar suas carreiras após a parada, mas grande parte simplesmente opta por perseguir outros caminhos profissionais, muitas vezes tão bem-sucedidos quanto os anteriores.
Para as empresas, que passam anos investindo na formação destas profissionais, e que conhecem bem o alto potencial destas executivas, não faz sentido deixá-las escapar. E é isto que, cada vez mais, as grandes empresas estão tentando evitar. Carro, bônus no final do ano, sala grande com vista para “o mar”, são sempre bem-vindos, mas não resolvem o problema. O fato é que as dinâmicas das carreiras em empresas não foram formatadas de forma a se adequar às mudanças de vida das profissionais que se tornam mães. A flexibilidade é a chave da retenção destas mulheres, o que não significa menos horas de trabalho, mas autonomia em relação a quando, onde e como usam estas horas.
Enquanto as mudanças não se consolidam, sorrisos amarelos de chefes, que no fundo querem dizer “- como assim você, logo você, em quem eu apostava tanto, resolve ficar grávida?”, vão sendo eficientes para espantar as executivas (ou para aumentar o consumo de antidepressivos).
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As empresas que se preocuparem em acomodar estas questões estarão mais perto de ganhar a fidelidade dos talentos femininos. Com 62% das mulheres brasileiras na condição de mães, deve valer a pena.
Denise Gallo e Renata Petrovic são sócias da Uma a Uma.