Conflitos Revistos
A Revista Claudia tem um slogan. Está lá, impresso na lombada da revista, edição após edição e, como tal, deve sintetizar o posicionamento da publicação. Afinal, slogans servem para isso. A frase é: “Independente, sem deixar de ser mulher”.
Muito me engano ou há algo de estranho nesse comando.
A sugestão é que independência e feminilidade podem ser integradas. Que, para ser uma coisa, não é preciso abrir mão da outra. A frase funciona como uma espécie de autorização para que, enfim, nos libertemos da associação “independente=masculino” e “feminino=dependente”. Mas, alguém ainda duvida disto?
Se esta frase fosse uma cena, se passaria no final da década de 70. Seria protagonizada por duas mulheres. Uma dona-de-casa, angelical, cordata, boa mãe, bem “feminina”. E uma executiva de coque, terninho Armani, mandona, talvez meio solitária, bem “independente”. As duas diriam desaforos, uma para a outra, do tipo:
“ - Você é uma banana! Só fica aí se preocupando com o cardápio do jantar. Só se interessa por fraldas e toalhinhas de lavabo. Não toma nenhuma decisão importante. E ainda acha graça em ganhar um beijinho na testa antes de dormir!”
“ - E você? Que nem na testa ganha beijinho? Os homens têm medo de você! De que adianta ganhar seu próprio dinheiro e ser livre? Vai ficar aí, falando grosso até não ter mais idade para ter marido e filhos.”
Podemos pensar que este conflito não se esgotou no século XX. Alguns elementos desta briga ainda existem. Não mais entre duas pessoas (ou grupos) convictas de suas opções de vida. É pior. Trata-se de uma discussão interna, quase esquizofrênica, da mulher com todos os seus próprios desejos. De qualquer forma, acredito que os muitos conflitos da mulher atual, e são muitos, não passem pela insegurança de temer não poder ser independente e feminina ao mesmo tempo.
Também podemos pensar que ser independente financeiramente virou quase uma obrigação para as mulheres. E que, hoje, a mulher que resolve deixar de trabalhar para cuidar dos filhos e da casa, é vista com uma pontinha de estranhamento. Tem que trabalhar, tem que ser bem-sucedida, tem que ganhar dinheiro. Como mostra a filósofa inglesa Alison Wolf, não deixa de ser um modelo opressor ao contrário.
Mas, mesmo considerando tudo isto, e, evidentemente, há muito mais a considerar, ninguém mais acha que ser “independente” poderia, remotamente, impedir a mulher de ser “mulher”, a ponto de isto precisar ser dito, todo mês, pela maior revista feminina do país.
Denise Gallo e Renata Petrovic são sócias da Uma a Uma.
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