Help!!!

Aconteceu com uma amiga. Vida real. Ela tinha um importante compromisso de trabalho na manhã de uma certa segunda-feira. Uma certa segunda-feira em que - a vida é assim - a babá pedira para faltar. Um certa segunda-feira simplezinha: férias, chuva, filhas pequenas enfurnadas em casa, uma delas com febre e dor de ouvido. A vizinha? Viajando. A avó? Vai a uma consulta, marcada desde o final de 2006! A cozinheira? Da última vez que deixou as duas com ela por alguns minutos, ouviu-a falando para a menor “- pronto, agora sai do forno e larga a faca, bonequinha!”.

Dilema instalado. Desmarcar a reunião com o cliente que está vindo de outro estado? Impossível. Pedir para a assistente se virar? Melhor não. Se jogar pela janela? Pode ser.

Como quando se usa um sapato levemente apertado no dedinho, o incômodo a acompanhou durante todo o final de semana. O marido, percebendo a neblina de angústia que envolvia minha pobre amiga mãe-empresária que, a esta altura, já questionava todas as suas opções de vida feitas nos últimos 36 anos, quis saber a razão daquela aflição.

Depois do desabafo (a tempestade), vem a solução (a bonança):

- Eu fico com elas!

- Ah? Como assim? Você? Onde estou? Quem sou eu?

O marido, alto-executivo de uma grande empresa, resolveu tudo em menos de 30 segundos. Checou a agenda da segunda, avaliou que todos os compromissos da manhã poderiam ser realocados, mandou um e-mail para a secretária e… pronto! Tudo resolvido. Agora, a explicação para o fato de minha amiga, que chegou a pensar em pedir ajuda ao porteiro, não ter sequer cogitado esta possibilidade, só anos e anos de uma sociedade predominantemente machista explicam.

Mas, uma coisa é certa: este casamento tem futuro! Segundo pesquisa realizada pela Pew Research, em que foram avaliados os fatores que, na opinião dos entrevistados, fazem um casamento funcionar, a “divisão das tarefas domésticas” aparece em terceiro lugar, atrás apenas da “fidelidade” e de uma “vida sexual feliz”. A cooperação nas atividades do lar, segundo a pesquisa, é mais importante do que “ganhos adequados”, “interesses em comum”, “mesmas crenças religiosas e políticas” e até “crianças”. E tem mais: foi o item que mais cresceu, em comparação à mesma pesquisa, feita em 1990, passando de 47% para 62%.

Resumo: “tudo bem não gostar dos mesmos filmes e das mesmas músicas. Tudo bem votar em outro candidato e adorar outro deus. Tudo bem até, se for preciso, viver mais modestamente. Mas, se não quiser o divórcio, faça a gentileza de não me deixar aqui com esta pilha de pratos!”

O arraigado hábito de tentar dar conta de tudo sozinha, no entanto, parece ainda acompanhar as mulheres, mesmo depois de tanta evolução. Neste sentido, elas próprias acabam alimentando a desigualdade. No caso da minha amiga, e levando em conta a pesquisa citada, o marido parece estar mais preparado do que ela para construir um casamento feliz.

Denise Gallo e Renata Petrovic são sócias da Uma a Uma.

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