Pesquisa no Salão. Por que não?
Salão de beleza é realmente um ambiente insólito. Há uma espécie de alegria excessiva no ar, um contentamento, uma excitação um pouco histérica, que faz das revistas de celebridades, sempre cuidadosamente espalhadas por todos os lados, uma literatura quase sóbria.
Mulheres em cenas constrangedoras abundam pelo espaço. Algumas têm seus cabelos repuxados para cima, lambuzados de tinta, envoltos em camadas de papel-alumínio, como se estivessem prestes a ser assadas no forno. Outras estão ali desde anteontem, fazendo apliques, alisamentos, escovas progressivas, numa prova de resistência que deixaria para trás qualquer treinamento do exército americano. Há aquelas que se encontram afundadas em poltronas, com as cutículas a ser escarafunchadas pela manicure, que encara aquele pé como se fosse o último. Sem falar nas sessões de depilação, que, graças aos santos, são feitas em salinhas protegidas, poupando os olhos da platéia do mais deprimente dos espetáculos.
Existe uma linguagem, corporal e verbal, própria dos salões de beleza. A corporal, fica bem representada pela prática de “falar fitando-se no espelho”, mesmo que sua interlocutora esteja ao seu lado. Como o que interessa ali é cuidar da aparência, existe uma espécie de autorização implícita para que se ignore certas convenções sociais do mundo “real”. O que interessa mesmo é ver como pareço enquanto falo. Devo abrir mais a boca, inclinar mais a cabeça para o lado, intensificar o movimento das mãos?
A linguagem verbal, então, é profusa em espeficidades… Quase um dialeto, cujo domínio absoluto pertence aos profissionais que trabalham ali. Por exemplo, na minha última “pesquisa” assisti a uma cena rica neste sentido. Uma moça, andando a passos largos e decididos, se aproximou do maquiador e disse: “quero um make basiquééérrrimo!” Imaginamos, e o maquiador provavelmente tem certeza, de que este termo está sendo empregado numa inédita e peculiar relação entre significante e significado. O pobre do maquiador deve apreender que, na verdade, o que ela está solicitando é um trabalho meticuloso que a deixe “linda de nascença” e que ela quer, mesmo é, à noite, na festa, parecer que esteve a tarde toda relaxando em casa, e jamais que ficou 8 horas enfurnada num salão.
Falando em profissionais, inclusive, acho que as manicures deveriam ser imediatamente contratadas pelas agências de propaganda para participar das reuniões de briefing de campanhas voltadas à mulher. Como ninguém, elas conhecem os pesadelos e os sonhos, possíveis e impossíveis, da mulherada. E ficam ali, impávidas, ouvindo tudo com um sorrisinho nos lábios. Esta sabedoria precisa ser aproveitada com urgência!
Salões de beleza podem ser campo para pesquisas produtivas. E pode até ser pesquisa quantitativa, pois, para quem não sabe, em São Paulo, existem mais salões de beleza (50 mil) do que táxis (30 mil) e bares e restaurantes (38 mil). E, se precisar de entrevista de retorno, tudo bem também. Segundo o Sindicato dos Institutos de Beleza e Cabeleireiros, as mulheres, além de serem super-fiéis aos seus cabeleireiros, freqüentam os salões, em média, duas vezes por semana. Toda semana! Esqueça a sala de espelho e planeje sua pesquisa no salão.
Denise Gallo e Renata Petrovic são sócias da Uma a Uma.
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