Arquivo de Outubro de 2007

Cadê meu Príncipe Encantado?

Os tempos mudaram, e como ninguém mais tem uma tia que tem uma empregada que tem uma sobrinha que tem uma prima que quer trabalhar, nossa amiga apelou para uma dessas empresas especializadas em ganhar dinheiro fácil, revestindo de inúteis técnicas de RH a difícil batalha por uma “auxiliar do lar”.

Na entrevista, três mulheres postam-se à mesa: contratante, candidata e profissional da agência. São a síntese das mulheres do Brasil. A rica, a pobre e a remediada. Afastadas pelas grifes, pela formação intelectual, pela culpa. Unidas pela determinação, pela TPM, pela chapinha. Papo vai e papo vem:

Contratante - Você é casada?
Candidata - Não.
Contratante - Tem namorado?
Candidata, muito muito desanimada - Tsc, tsc.
Contratante, em repentina explosão de cumplicidade – Gente! Como tá difícil, né?
Remediada, muda e calada até ali - Ufa, nem me fale, eu que o diga!

Nem o mais sonhador dos socialistas imaginou união de classes tão sincera! E nem o mais ambicioso dos capitalistas imaginou uma marca global tão bem-sucedida quanto esta “Cadê meu Príncipe Encantado?”, hit em todas as Américas.

A revista americana Cosmopolitan conduziu uma pesquisa com mulheres entre 18 e 34 anos, e descobriu que 77% delas declaram sentir-se mais felizes quando estão namorando do que quando estão solteiras. Quase 40% não vêem sentido em relacionamentos que não tenham o casamento como meta. Metade acredita que o maior sinal de sucesso feminino é viver um casamento feliz. Praticamente todas as solteiras que responderam à pesquisa (93%), prefeririam estar comprometidas com alguém. E, se for para escolher, 56% das mulheres optariam por encontrar o “cara certo” em lugar de ter uma grande promoção no trabalho.

Embora a maioria das mulheres da pesquisa (bom… leitoras de Cosmopolitan) pareça ter embarcado numa carruagem só de ida em busca do “homem certo, para a vida toda”, elas acreditam que as taxas de divórcio de sua geração serão maiores do que as da anterior e que está mais difícil manter um relacionamento hoje em dia do que à época de seus pais. Mas, o sonho resiste…

A conclusão mais fácil é que a Cosmopolitan, e sua versão brasileira Nova, podem seguir firme com suas múltiplas receitas e testes para ajudar suas leitoras a identificar, atrair e laçar o “homem certo”. Já que ninguém devolve a revista quando a tática não funciona, o sucesso estará garantido por mais algumas gerações.

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Feminista de Carteirinha (Vencida)

O livro saiu e voltou para o final da fila várias vezes, até que Uma (a Uma) de nós resolveu consumi-lo. Trata-se de Lipstick Jungle (Selva de Batom) da autora americana Candace Bushnell, a mesma de Sex and the City.

Formulinha mágica: cotidiano glamuroso de mulheres ricas que vivem em Manhattan. Nas linhas e nas entrelinhas: ode ao dinheiro, ao poder e ao consumo, apresentados como o tripé da máxima realização pessoal e profissional.

Selva de Batom conta a história de três amigas na faixa dos 40: Nico, Wendy e Victory, números 8, 12, e 17 no ranking das 50 mulheres mais poderosas de Nova York. Na busca por mais poder e mais dinheiro, mais dinheiro e mais poder, as três não se constrangem em soterrar relacionamentos, jogar sujo ou vender a alma pelo sucesso. E os homens do livro são todos uns bananas que vivem à sombra destas mulheres de ego turbinado.

Poderia ser divertido, curioso e charmoso, uma caricatura, uma tiração de sarro. Mas o que pensar sobre o livro depois de ler a declaração que fez sua autora ao jornal The New York Times: “é o mais feminista de meus trabalhos”? Que delícia! Então quer dizer que feminismo = igualdade de papéis, chegar “lá”, ocupar lugares antes exclusivos aos homens, adotar os mesmo códigos e com as mesmas ambições. Valeu esperar: esta é realmente a resposta que estávamos aguardando para a situação da mulher no século XXI: um cut and paste do padrão masculino-dono-do-mundo!

De qualquer forma, o que é feminismo a esta altura do campeonato? Esperemos que, depois de tanta água debaixo da ponte, seja algo mais parecido com liberdade de escolha. Ou seja, tudo o que o livro enaltece, para as mulheres que assim desejem. O oposto, para as que quiserem. E todas as nuanças intermediárias, para quem preferir. Menos modelos ditados. E, de preferência, menos chapinha nos cabelos ondulados!

Denise Gallo e Renata Petrovic são sócias da Uma a Uma.

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