Arquivo de Novembro de 2007

Liberdade de não Escolha

- Amor, para onde a gente vai no Reveillon?
- Que tal Bahia? Foi tão bom ano passado!
- De novo? Tanto lugar pra conhecer…
- Pensou em algum?
- Hummm. A gente podia ir para Fernando de Noronha. Costa Rica também seria legal. Chapada Diamantina? Bom, mas também com preço de Reveillon, dá para passar uma semana em Paris!

Pronto. Angústia instalada. O casal, que estaria feliz da vida naquela mesma pousada, pedindo aquele mesmo bolinho de peixe e curtindo aquela mesma praia, agora se vê diante de tantas opções possíveis que, a esta altura, a viagem já virou o “Projeto Reveillon 2007/2008”, com pesquisas, cronograma e reuniões semanais de atualização.

Eles acabam de ser picados pelo poderoso mosquito “opções-proliferantis” da família dos pertubadores “e-se-tiver-uma-alternativa-melhor?” Todo mundo conhece, principalmente as mulheres! Qualquer pessoa que precisou escolher uma câmera digital, um plano médico ou até mesmo uma calça jeans na última década, já viu este mosquito de perto.

Em seu livro “O paradoxo das escolhas”, o sociólogo Barry Scwartz explica que à medida em que a variedade de escolhas aumenta muito, como acontece em nossa cultura de consumo, os aspectos negativos de haver um número infinito de opções também aumentam, gradativamente, até nos sufocar.

E para nos deixar bem sufocados, TUDO é escolha, neste mundo contemporâneo. Além de produtos e serviços, um amplo leque de modos de ser, de pensar e de agir, está à disposição de quem quer inventar-se e reinventar-se. Esta é a mensagem que pipoca por todos os lados. Da medicina à moda, da auto-ajuda à alimentação, infinitas são as receitas para o sucesso, o bem-estar, a beleza, a saúde, a felicidade. E quem diz o que é sucesso, bem-estar, beleza, saúde e felicidade? Este é o problema: os mesmos que oferecem as receitas.

A necessidade de escolher o tempo todo, entre tantas opções, cujos “ciclos de vida” são cada vez mais curtos, é uma abundante fonte de ansiedade. Nosso presente, e agora também nosso futuro (para quem assistiu “O Segredo”), estão em nossas mãos. É a carga pesada do que um dia se chamou liberdade de escolha. É sempre bom lembrar, no entanto, que escolher não escolher também pode ser uma escolha. Mas aí, é melhor nem entrar no shopping…

Denise Gallo e Renata Petrovic são sócias da Uma a Uma.

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Um troféu que não tem preço

O que é uma coisa que, de tão boa, tão boa, tão boa, não há dinheiro no mundo que pague? Você pode ter uma certa dificuldade para fazer sua escolha, assim, de bate-pronto. Mas a publicidade da Mastercard tem a resposta na ponta da língua, como se vê neste anúncio, veiculado na revista Claudia, em 2001, e encontrado em meio às nossas pesquisas.

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A moça, relaxada em sua poltrona, vestindo um roupão muito confortável, talvez adquirido em algum Relais & Châteaux mundo afora, parece viver um êxtase matinal abençoado. O texto do anúncio nos dá pistas sobre os acontecimentos que deflagraram tanta felicidade:

“Comprinhas na rôtisserie: R$ 55,00
1 garrafa de vinho tinto: R$ 45,00
1 vestidinho novo: R$ 120,00″

Hummm, ela deve ter recebido um convidado na noite anterior. Está mesmo com cara de quem recebeu um convidado na noite anterior! Mas quem é esta mulher? Usa roupões confortáveis, senta-se à vontade em sua poltrona de couro claro, joga a cabeça para trás e sorri olhando para o infinito. E o que mais?

É preciso prestar atenção aos diminutivos. “Comprinhas”, por exemplo. Ela não é uma mulher que se joga no supermercado para fazer a compra do mês. Nada de compras ou compronas. Ela é sofisticada e gosta de conforto. Faz “comprinhas”, em empórios, mercearias, rôtisseries. Uma coisa mais para queijo de cabra do que para sacos de lixo ou feijão.

Há também o “vestidinho novo”. Comprar um “vestidinho novo” é quando a pessoa, embora tenha muitos vestidos no closet, resolve dar uma “passadinha” no shopping para dar um “rolezinho” e ver se encontra um “vestidinho” para usar à noite. Não que ela precise, é apenas um “agradinho”. Tudo muito corriqueiro, leve e prazeroso. A esta altura, já dá para pensar que esta é uma mulher que curte a vida. E também que é independente, mora sozinha, é sofisticada, usa roupões macios. O fio do telefone, assim como os preços do vestido e do vinho, ficam por conta do ano de 2001…

Sobre o jantar romântico e a noite que se seguiu a ele, nada sabemos. Devem ter sido bons, mas não sabemos. E também não importa. O que importa, então? O que, depois da comprinha, do vestidinho, do jantarzinho, faz tudo valer a pena?

Ela ter dado inesquecíveis beijos na boca, ter se divertido muito, ter dançado ou visto uma chuva de estrelas cadentes? Não, claro que não. A verdadeira celebração acontece quando o convidado que se foi concede a ela o máximo prêmio que uma mulher pode esperar em troca do seu esforço: ele liga para ela no dia seguinte. Pronto. Isto sim é tão bom que não tem preço.

A mulher retratada na campanha, que a princípio imaginamos livre, leve e independente, é aquela para quem a aprovação do homem é o troféu. Olhando bem, é possível até ler seus pensamentos: “Agora posso sorrir e respirar aliviada. Fiz tudo certo e fui recompensada. Afinal, ele ligou no dia seguinte!!!”

Denise Gallo e Renata Petrovic são sócias da Uma a Uma.

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