Arquivo de 15 de Novembro de 2007

Um troféu que não tem preço

O que é uma coisa que, de tão boa, tão boa, tão boa, não há dinheiro no mundo que pague? Você pode ter uma certa dificuldade para fazer sua escolha, assim, de bate-pronto. Mas a publicidade da Mastercard tem a resposta na ponta da língua, como se vê neste anúncio, veiculado na revista Claudia, em 2001, e encontrado em meio às nossas pesquisas.

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A moça, relaxada em sua poltrona, vestindo um roupão muito confortável, talvez adquirido em algum Relais & Châteaux mundo afora, parece viver um êxtase matinal abençoado. O texto do anúncio nos dá pistas sobre os acontecimentos que deflagraram tanta felicidade:

“Comprinhas na rôtisserie: R$ 55,00
1 garrafa de vinho tinto: R$ 45,00
1 vestidinho novo: R$ 120,00″

Hummm, ela deve ter recebido um convidado na noite anterior. Está mesmo com cara de quem recebeu um convidado na noite anterior! Mas quem é esta mulher? Usa roupões confortáveis, senta-se à vontade em sua poltrona de couro claro, joga a cabeça para trás e sorri olhando para o infinito. E o que mais?

É preciso prestar atenção aos diminutivos. “Comprinhas”, por exemplo. Ela não é uma mulher que se joga no supermercado para fazer a compra do mês. Nada de compras ou compronas. Ela é sofisticada e gosta de conforto. Faz “comprinhas”, em empórios, mercearias, rôtisseries. Uma coisa mais para queijo de cabra do que para sacos de lixo ou feijão.

Há também o “vestidinho novo”. Comprar um “vestidinho novo” é quando a pessoa, embora tenha muitos vestidos no closet, resolve dar uma “passadinha” no shopping para dar um “rolezinho” e ver se encontra um “vestidinho” para usar à noite. Não que ela precise, é apenas um “agradinho”. Tudo muito corriqueiro, leve e prazeroso. A esta altura, já dá para pensar que esta é uma mulher que curte a vida. E também que é independente, mora sozinha, é sofisticada, usa roupões macios. O fio do telefone, assim como os preços do vestido e do vinho, ficam por conta do ano de 2001…

Sobre o jantar romântico e a noite que se seguiu a ele, nada sabemos. Devem ter sido bons, mas não sabemos. E também não importa. O que importa, então? O que, depois da comprinha, do vestidinho, do jantarzinho, faz tudo valer a pena?

Ela ter dado inesquecíveis beijos na boca, ter se divertido muito, ter dançado ou visto uma chuva de estrelas cadentes? Não, claro que não. A verdadeira celebração acontece quando o convidado que se foi concede a ela o máximo prêmio que uma mulher pode esperar em troca do seu esforço: ele liga para ela no dia seguinte. Pronto. Isto sim é tão bom que não tem preço.

A mulher retratada na campanha, que a princípio imaginamos livre, leve e independente, é aquela para quem a aprovação do homem é o troféu. Olhando bem, é possível até ler seus pensamentos: “Agora posso sorrir e respirar aliviada. Fiz tudo certo e fui recompensada. Afinal, ele ligou no dia seguinte!!!”

Denise Gallo e Renata Petrovic são sócias da Uma a Uma.

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