Liberdade de não Escolha

- Amor, para onde a gente vai no Reveillon?
- Que tal Bahia? Foi tão bom ano passado!
- De novo? Tanto lugar pra conhecer…
- Pensou em algum?
- Hummm. A gente podia ir para Fernando de Noronha. Costa Rica também seria legal. Chapada Diamantina? Bom, mas também com preço de Reveillon, dá para passar uma semana em Paris!

Pronto. Angústia instalada. O casal, que estaria feliz da vida naquela mesma pousada, pedindo aquele mesmo bolinho de peixe e curtindo aquela mesma praia, agora se vê diante de tantas opções possíveis que, a esta altura, a viagem já virou o “Projeto Reveillon 2007/2008”, com pesquisas, cronograma e reuniões semanais de atualização.

Eles acabam de ser picados pelo poderoso mosquito “opções-proliferantis” da família dos pertubadores “e-se-tiver-uma-alternativa-melhor?” Todo mundo conhece, principalmente as mulheres! Qualquer pessoa que precisou escolher uma câmera digital, um plano médico ou até mesmo uma calça jeans na última década, já viu este mosquito de perto.

Em seu livro “O paradoxo das escolhas”, o sociólogo Barry Scwartz explica que à medida em que a variedade de escolhas aumenta muito, como acontece em nossa cultura de consumo, os aspectos negativos de haver um número infinito de opções também aumentam, gradativamente, até nos sufocar.

E para nos deixar bem sufocados, TUDO é escolha, neste mundo contemporâneo. Além de produtos e serviços, um amplo leque de modos de ser, de pensar e de agir, está à disposição de quem quer inventar-se e reinventar-se. Esta é a mensagem que pipoca por todos os lados. Da medicina à moda, da auto-ajuda à alimentação, infinitas são as receitas para o sucesso, o bem-estar, a beleza, a saúde, a felicidade. E quem diz o que é sucesso, bem-estar, beleza, saúde e felicidade? Este é o problema: os mesmos que oferecem as receitas.

A necessidade de escolher o tempo todo, entre tantas opções, cujos “ciclos de vida” são cada vez mais curtos, é uma abundante fonte de ansiedade. Nosso presente, e agora também nosso futuro (para quem assistiu “O Segredo”), estão em nossas mãos. É a carga pesada do que um dia se chamou liberdade de escolha. É sempre bom lembrar, no entanto, que escolher não escolher também pode ser uma escolha. Mas aí, é melhor nem entrar no shopping…

Denise Gallo e Renata Petrovic são sócias da Uma a Uma.

Enviar por e-mail. Hits para esta publicação: 348.

Deixe um Comentário