Novas Brincadeiras
Crianças gostam de brincar. Meninas brincam de casinha e de princesas. Meninos brincam de carrinhos e de luta. Meninas são jeitosas e delicadas. Meninos são brutos e muito agitados. E, assim, vamos cultivando padrões de comportamento seculares.
É evidente que existem diferenças entre os gêneros, sejam elas biológicas, psicológicas ou sociais. E é esperado que meninos e meninas as expressem desde cedo. Mas, boa parte destes “traços” aceitos como “naturais” são criados pela cultura e não a partir das verdadeiras habilidades e gostos de cada um.
Certa vez, uma amiga presenteou o filho de outra amiga com uma pia de madeira. Destas para serem colocadas no quintal, que sai água de verdade da torneira! Tem armário embaixo para guardar coisinhas e é do tamanho adequado para a criança brincar em pé. Uma verdadeira delícia. Pode render horas de entretenimento gostoso e saudável. Não rendeu, neste caso. O pai da criança presenteada, um jovem moderno e esclarecido, exigiu que aquele objeto “nocivo à construção da identidade masculina de seu garoto”, desaparecesse imediatamente da casa. E assim foi feito. A pequena pia, de menina, foi trocada por uma estação de ferramentas, de menino. “- Tá pensando que meu filho é o quê?”
Recentemente foi noticiado, pelo rádio e pelos jornais, que a Corolle, a mais tradicional loja de brinquedos da França, criou oficinas para que meninos e meninas se divirtam, lado a lado, brincando com bonecas, num ateliê que simula o espaço doméstico. As crianças brincam de dar comida, banho, trocar a fralda e ninar seus “bebês”.
A proposta é contribuir com a formação do “novo homem”. Até porque o “velho” anda meio folgado. Na França, somente 2% dos homens casados passam suas roupas, diferente dos solteiros, que já incorporaram esta atividade às suas rotinas. Ou seja, é só casar e o príncipe encosta o corpo.
Enquanto isso, aqui nos trópicos, obviamente a situação é ainda mais desigual. Segundo o PNAD de 2005, entre as pessoas ocupadas, 51,6% dos homens cuidavam de afazeres domésticos, enquanto, entre as mulheres, este percentual era de 91,8%. Os homens, segundo o mesmo levantamento, gastavam 9 horas semanais nestas tarefas, as mulheres 22.
O curioso é que eles crêem que sim, dividem as tarefas igualmente. Uma pesquisa, que serviu de base para o livro “Gênero, Família e Trabalho no Brasil” (editora FGV), mostrou que, para 56% dos homens, a tarefa de cuidar dos filhos era dividida igualmente. Apenas 9% das mulheres tinham a mesma opinião. A análise da pesquisa apontou que a diferença estava naquilo que cada um considera ser “cuidar”. Para ela, é… bem… é cuidar. Para eles, trocou uma fralda mês passado, deu banho anteontem, saiu para passear outro dia e, pronto, as tarefas estão divididas.
Por estas e por outras, a iniciativa da Corolle parece interessante. Não sejamos ingênuos, pois, antes de ser um compromisso social, trata-se mesmo é de um compromisso com o faturamento da indústria, já que as vendas de bonecas na França caíram 10% em 2006, segundo o jornal Le Figaro. De qualquer forma, como em tudo, as mudanças se dão a partir da educação.
Pais e mães pós-modernos, portanto, se seus meninos lhes pedirem para trocar a fralda da boneca da irmã, incentivem-os sabendo que estão contribuindo com o futuro da humanidade. E não se preocupem em sair correndo para marcar uma reunião com a psicóloga.
Denise Gallo e Renata Petrovic são sócias da Uma a Uma.