Arquivo de Janeiro de 2008

Provação no Provador

As liquidações de verão começaram. Para as mulheres que compram regularmente em suas lojas favoritas, boa notícia: é só passar, arrematar aquelas duas peças que ficaram faltando, com 40% de desconto, e pronto. Mas as coisas não são tão simples para aquelas outras que, por falta de tempo, de dinheiro, ou de ambos, têm consciência que esta - e só esta - é a hora de tirar o pé da lama da falta de roupa nova no armário.

Primeiro, você recebe a ligação da simpática vendedora que já sacou que, há mais ou menos 10 coleções, você só aparece no momento da liquidação. Com toda a elegância do mundo, sem querer ofender ou chamá-la de muquirana, ela avisa que a liquidação começa amanhã.

Educada, você agradece e desliga o telefone como se nada tivesse acontecido. Tenta esquecer o assunto. Tenta se lembrar que bens materiais não trazem felicidade. Tenta concentrar-se na leitura do jornal e pensar em coisas mais importantes. Tenta, tenta, tenta. Mas o fato é que não consegue. E, já que é pra ir, melhor que seja logo, antes que acabe tudo.

A tortura começa já no primeiro passar de olhos pelas araras. Você torce para gostar de poucas coisas. Sente alívio quando vê um short lindo, de uma cor que detesta e que, portanto, pode ser descartado. Mas a vendedora, lendo seus pensamentos, avisa: “este veio também em cinza, verde, berinjela e amarelo”. Em alguns minutos, você estará no espaçoso provador, munida das 25 peças selecionadas, mais aquelas que ela foi buscar no estoque.

Experiente, você sabe que, neste estágio do processo, o foco deve ser eliminar opções. E bem que você tenta. Tenta se livrar rapidamente daquele mini-vestido que não está conseguindo amarrar. Mas ela - a vendedora habilidosa - reaparece do nada para delicadamente mostrar como vestir a birosca. Para seu desespero, fica lindo! Nesta hora, você pensa: “vou desistir de tudo”. Sabe que ainda está em tempo. Você pensa em ligar para uma amiga, marcar um almoço dali 10 minutos e esquecer este desejo incontrolável de consumir. Mas, e depois? Voltar pra casa de mãos abanando? Não, não. Você sabe que ainda não atingiu tal nível de desapego e, resignada, decide continuar.

Põe, tira, veste, desveste, outra cor, outro modelo, mais curto, mais comprido… A esta altura, você já organizou as pilhas de roupas provadas. Tem a pilha “não, com certeza não”, a menor de todas. Tem a pilha “não, mas pode ser, será?”. Tem a pilha do “sim, mas sobrevivo sem”. Tem a pilha “importante como o ar que eu respiro”. E, assim, vai…

De vez em quando, a vendedora aparece para dizer: “olha, encontrei ‘aquela’ que achei que não tinha mais, no seu número, na cor que você gostou. Quer provar? Fica linda no corpo!”. Sem saber se você a ama ou odeia, você vai aceitando. E, para cada cinco peças que entram no provador, você consegue se desfazer de duas, quando ela pergunta se pode tirar alguma, com medo que você seja soterrada.

O processo sempre compreende uma etapa crítica e dolorosa, que é quando, já de posse de uma primeira seleção de “escolhidas”, você decide fazer uma soma mental dos valores, para saber de quantas peças terá que se livrar. Porém, como ninguém sabe fazer conta com 40% de desconto, você faz a soma com 50% mesmo, para ficar mais fácil. No íntimo, você se pergunta: “quem estou querendo enganar?”. Claro que sabe a resposta, mas engana-se assim mesmo, porque enganar-se faz parte do processo.

Algumas horas mais tarde, a “provação” terá acabado e você sairá feliz da vida com suas sacolas, embora meio tensa por ter estourado a banca já na primeira loja. Mas, alguma reação química muito louca ocorre no cérebro feminino neste instante e, como se tivesse tomado um comprimido ultra-potente, o prazer irá se sobrepor à preocupação, assim como a qualquer desconforto resultante da loucura recém vivida. E é justamente este comprimido invisível e mágico que garantirá sua presença nesta e em outras liquidações.

Agora, é impressão minha ou as liquidações estão começando cada vez mais cedo? Generosidade das confecções? Ou estaria ocorrendo na moda o mesmo que já acontece na enganação da meia-entrada dos programas culturais? Preços ultra-inflados para que, após o desconto, o valor seja equivalente ao que deveria ser o preço cheio? Não importa, no surto das liquidações, as mulheres não raciocinam direito mesmo…

Denise Gallo e Renata Petrovic são sócias da Uma a Uma.

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