Arquivo de Abril de 2008

Saudades do Plim-Plim

Algo me diz que chegará o dia em que teremos saudades das placas de rua extintas pelo Cidade Limpa. Também nos lembraremos, com certa nostalgia, dos breaks comerciais que hoje interrompem nossos programas de TV favoritos. Chegaremos à conclusão de que éramos felizes e não sabíamos quando a mocinha do telemarketing nos acordava sábado de manhã para saber se “estávamos tendo” interesse em uma incrível promoção de minutos telefônicos a cinco centavos.

Serão lembranças de um tempo em que ainda podíamos identificar quando alguém estava tentando nos vender alguma coisa. Ou melhor, achávamos que podíamos, já que, cá entre nós, quase tudo em nossas vidas já está colonizado pelos incríveis poderes do marketing. De qualquer forma, há um quê de autonomia no ato de mudar de canal, desligar o telefone ou clicar no botão “fechar”. Mas não adianta, isto será passado: o paleolítico da comunicação, a pedra lascada da publicidade, o neanderthal do homem de marketing. Em suma: coisa de amador. E os sinais da nova era já vêm ganhando espaço.

Recentemente, folheando revistas ou assistindo à TV, dei de cara com conhecidos meus estrelando comerciais que tentam, tentam e tentam, não parecer comerciais. Tudo muito “natural”. Pessoas “de verdade”, em situações “de verdade”, usando “de verdade” produtos e marcas, que, assim, parecem boas “de verdade”. Deve funcionar, afinal ninguém mais acredita que a Xuxa use creme Monange.

No mundo da comunicação “evoluída”, você abre uma revista e se diverte com o mico de duas celebridades que usavam o mesmo vestido em uma festa. O que você não sabe, mas vai aprender com o tempo, é que aquilo tudo foi armado justamente para gerar notícia e chamar sua atenção para o tal vestido que - sinsalabin! - tem como estampa a logomarca de um xampu.

Outro exemplo: você está conversando, despreocupadamente, com um colega de faculdade, batendo papo sobre o que fez ontem à noite quando chegou em casa ou o que pretende fazer nas próximas férias. O que você nem imagina, mas vai imaginar com o tempo, é que o cara está anotando tudo em sua mente atenta, para relatar à empresa para a qual presta serviço como caçador de tendências (uma espécie de pesquisador disfarçado).

Este amigo, ou outro qualquer, pode também sugerir que você vá a alguma festa legal ou que experimente algum suco gostoso. Normal, amigos fazem isso. O que você nem sonha, mas sonhará com o tempo, é que trata-se de uma ação de boca-a-boca planejada, justamente para que tudo pareça muito verdadeiro. Boca-a-boca, aliás, no qual as mulheres são especialistas, desde que Eva recomendou a Adão que experimentasse a maçã.

Que mecanismos o ser humano vai precisar desenvolver para dar conta de tanta “autenticidade”? Será que nos tornaremos todos cínicos e não acreditaremos em mais nada? Tipo: você está saindo de casa e sua mãe manda o clássico:

- Filha, leva um casaquinho para não tomar friagem!

Aí você, um ser consumidor da nova era, conclui:

- Hummm… bem que eu desconfiava que a mamãe era agente de buzz da malharia da dona Zezé!

Mas decide não comentar nada, já que ela não percebeu que a conversa que você puxou ontem ao jantar, sobre previdência privada, também era uma encomenda do seu cliente. E você sai apressada para o café com as amigas, levando a lista de temas no bolso e o casaquinho na bolsa. Afinal, mãe é mãe.

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