Aceitação?
O que é a arte de envelhecer? Reportagem publicada na revista Época da última semana aborda o tema, aparentemente com a proposta de incentivar as mulheres a aceitarem a “queda-do-império-romano” como uma passagem natural, que deve ser acolhida, já que não pode ser abolida (pense bem: a única forma de não ficar velho é morrer jovem, certo? E isso ninguém quer).
A revista explica de onde vem a obsessão contemporânea pela juventude, dá dicas para envelhecer com qualidade de vida, aponta os exageros cometidos pelos que querem camuflar a idade, enaltece os corajosos que toleram suas próprias rugas. Bacana!
Mas, quando o assunto é o invólucro que nos embala – a pele, este tecido teimoso, insubordinado, folgado e egocentrado – aí, não há matéria bem intencionada que resista. Por isso, mesmo cheia de boas intenções, a reportagem chega lá: “novas técnicas de rejuvenescimento permitem manter uma aparência mais jovem sem comprometer a harmonia do rosto e do corpo”. Graças a estas técnicas - olha que boa notícia! – “a cirurgia plástica pode ser postergada”. Postergada? Já é tão óbvio que todo mundo vai entrar na faca mais cedo ou mais tarde, que o máximo que se pode fazer é postergar? Hummm, entendo.
E, realmente, para quem não quer sua epiderme fora de moda, não faltam opções malucas com nomes bizarros: “gel preenchedor de hidróxido de apatita”, “preenchimento com colágeno de porco”, “tratamento 4-D”, “lifting tridimensional”. Sim, estão todas lá na revista. Uma loucura! Em uma lista assim, “Botox” fica até parecendo coisa de “velho”. E a reportagem termina dessa forma: com um guia para manter a aparência jovem…
Vemos, no entanto, que, como em muitos outras situações da vida, lidar com a ameaça do fantasma é pior do que o fantasma em pessoa. As pesquisas mostram que a mulher de 40 sofre mais com a iminência da perda da aparência jovem do que a mulher de 60, quando o espelho já escancarou a realidade inexorável. Segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica, quase 60% de todos os procedimentos feitos no país concentram-se na faixa etária de 21 a 50 anos. Nos EUA, 72% dos procedimentos cosméticos, cirúrgicos e não cirúrgicos, são feitos antes dos 50. Depois dos 50, parece que elas ficam mais interessadas em preencher a agenda do que os sulcos. Querem cuidar da aparência com mais equilíbrio e mais aceitação. De acordo com uma pesquisa online realizada pela empresa americana Frank About Women com 1.562 mulheres, 18% das que têm entre 35-39 acreditam que envelhecer bem é parecer 10 anos mais jovem. Entre as mulheres acima de 60 anos, este percentual é de apenas 9%.
Assim, quando o fantasma-hóspede chega, portando sua bagagem de rugas, sua valise de flacidez e sua necessaire de manchas de pele, uma expressiva parcela de mulheres parece disposta a convidá-lo para um café, ou melhor, para um champagne e a curtir sua companhia. Querem cuidar da aparência, mas sem enxotar o “fantasma” com privações, seringas e facões.
A Uma a Uma acaba de concluir um estudo sobre mulheres de 50 a 70 anos, um segmento que merece ser cada vez mais compreendido, seja pela importância sócio-econômica que adquire, seja pela complexidade das transformações que acontecem no corpo e na mente da mulher nesta etapa da vida. Voltaremos a este assunto aqui no blog.
Denise Gallo e Renata Petrovic são sócias da Uma a Uma.