Plástica: Como Aprender a Desejá-la
De uns tempos pra cá, tem se tornado freqüente, na mídia impressa, a publicação de reportagens que denunciam a busca incessante pela beleza e pela juventude. Após décadas de catequese sobre os poderes da tecnologia na manipulação da aparência (sempre colada à disseminação do padrão de beleza Barbie) agora parece que a mídia resolveu aliviar. Mas, olhando de perto, só parece.
É o que mostra a leitura da reportagem sobre a arte de envelhecer, publicada pela Época, comentada aqui no Blog. Também é o que mostra a leitura da reportagem sobre cirurgia plástica, publicada pela Veja. O que, de início, parece uma reflexão crítica, mostra-se, ao final, um estratégico reforço à não-aceitação do envelhecimento natural. Afinal, imagine o que seria da indústria da beleza se as pessoas passassem a aceitar as marcas do tempo em seus corpos…
O texto de Veja começa observando, com estranhamento, que os rostos velhos estão desaparecendo das grandes cidades, dando lugar a seres de aparência lisa, lustrosa, esticada. Por meio dos comentários feitos por um menino francês a uma escritora americana, a revista chega até a afirmar, generosamente, que não há nada de errado com os velhos que parecem velhos.
Mas, após uma breve crítica ao sumiço das rugas da paisagem urbana, a reportagem de Veja se apruma e dedica as páginas seguintes ao que mais sabe fazer: (1) lançar novas patologias, para as quais, evidentemente, sempre haverá antidepressivos e antipsicóticos adequados e (2) ensinar o leitor a consumir o que o mercado oferece, já que não consumir parece estar totalmente fora de questão.
Com o distúrbio devidamente mapeado e exemplificado com aberrações do tipo Mickey Rourke e Donatella Versace, a revista, então, ensina a “entrar na faca e fazer bem à alma” e aponta Demi Moore como “um dos melhores exemplos de como é possível envelhecer bem”. Como, hein, cara-pálida-esticada? A matéria prossegue: com “liftings, injeções de colágeno, próteses mamárias, lipoaspiração nas coxas, quadris e abdomen, clareamento dos dentes…” Ufa! E ela tem só 45 anos!
Assim, de um lado, os malucos, doentes, que fazem 9 cirurgias plásticas no nariz, portadores do agora batizado “transtorno dismórfico corporal” (já imaginou se, depois da reportagem, os doentes resolverem tirar licença para se tratar? Bem, não seria possível, porque as novelas teriam que sair do ar por falta de elenco!). De outro lado, as pessoas “normais”, que recorrem a “médicos sérios” para cuidar da auto-estima, já que, segundo a revista, “os benefícios psicológicos de uma cirurgia plástica, quando bem feita e bem indicada, são mesmo inegáveis”.
Já aqueles - esquisitos - que querem viver bastante e nem conseguem se imaginar numa mesa de operação para “corrigir” o que está “errado”, o negócio é esperar pelo novo distúrbio, que acabará sendo lançado para dar conta dessa bizarrice de aceitar rugas, cabelos brancos e flacidez. Transtorno da aceitação corporal! Uma hora dessas, ele também será descrito pelos psiquiatras.
Denise Gallo e Renata Petrovic são sócias da Uma a Uma.