Arquivo de Setembro de 2008

O Passar do Tempo

Era um domingo ensolarado e fomos passear no zoológico. Diversão garantida para quem é criança. Eu, pessoalmente, me sinto bem melancólica quando vejo aqueles animais presos e entediados, com suas vidinhas bestas enjauladas. Encontrei uma amiga antiga, que também passeava com seus filhos e, entre uma onça cansada aqui, uma fila de sorvete ali e um berro para chamar filho acolá, conversamos sobre a vida.

Os filhos estão crescendo e vão nos dando esta nova dimensão do passar do tempo. Minha amiga, perto, pertíssimo dos 40 anos, a certa altura, desabafou: “não sei se estou preparada para envelhecer”. Fui obrigada a lembrá-la que o tempo não vai parar de passar, só porque ela não se sente preparada para lidar com seus efeitos. Ou defeitos, em nossa cultura.

Pensamos juntas sobre esta estranha e perversa equação contemporânea: viver mais, de um lado; não envelhecer, de outro. A juventude é o maior valor, mas, cada vez mais, as pessoas serão velhas por muito mais tempo do que serão jovens. Se não acharmos isto bom, estamos lascados.

Hoje estava lendo a revista Serafina, da Folha de São Paulo, e voltei a pensar no assunto. A maior parte da matérias trata de gente. Nesta edição, são 13 perfis, entrevistas e reportagens sobre pessoas. Mais da metade, mulheres e, entre estas, quase todas com mais de 50 anos. Ana Jobim, 53, Denise Dummont, 53, Helena Ramos, 55, Rosa Lemos de Sá, por aí, Maria Bethânia, 62. Descontados os coloridos poéticos que as revistas adoram fazer em “perfis do bem”, a leitura mostra que não há, necessariamente, um “auge” na vida. Isso, é claro, se nos reeducarmos para desconstruir a associação auge/juventude. As mulheres entrevistadas já conversaram com o capeta. Tiveram muitas perdas. Mas vivem emaranhadas numa trama de recolhimento e expansão, à frente de projetos vivos, com os quais se misturam e misturam suas histórias de vida.

Não há como não notar o contraste entre estas reportagens e as páginas das publicidades com as quais são intercaladas. Coincidentemente, a revista tem 13 publicidades que mostram gente. Quase todas mulheres e… TODAS jovens!

Não sei não, mas quando me lembro dos movimentos do corpo da Bethânia no palco, do seu cabelo comprido e grisalho, das suas mãos e seu rosto marcados, da intensidade e da harmonia de sua presença, não dá para não perguntar o óbvio: estamos buscando qualidade e beleza nos lugares certos?

Denise Gallo e Renata Petrovic são sócias da Uma a Uma.

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Cuidado com a Formiga

Final de semana num hotel-fazenda nos arredores de São Paulo. Mas pode também chamar de aula livre sobre o curioso projeto pedagógico da burguesia paulistana.

Estar diante de famílias nunca vistas, com a excessiva “intimidade” que um “hotel-fazenda-família” propõe, e poder observar as dinâmicas, as tensões e as manias dos outros, é um exercício praticamente irresistível para nós, curiosos.

Evidentemente, jamais devemos perder de vista que, aos olhos dos outros, os estranhos somos nós. Mas isto é um outro assunto. Vamos falar sobre a mini investigação fenomenológica que se deu.

A fenomenologia é um caminho para se estudar todo e qualquer fenômeno que se apresente à nossa mente. O primeiro passo, proposto por este método, é adotar uma atitude contemplativa em relação ao objeto de estudo. Olhar, pura e simplesmente. Sem visões pré-estabelecidas, sem julgamentos anteriores. Apenas olhar e deixar que o fenômeno se apresente. Que “fale” por si. Neste caso, que berre!

A pequena, porém significativa, amostra que compôs meu “estudo” é muito afeita ao volume elevado da voz. Mas esta não é, nem de longe, a característica que mais se destacou em minha breve investigação.

Foi possível notar uma atitude intensamente super-protetora nos pais que estavam ali. As crianças jamais ficavam sozinhas, simplesmente brincando entre si. Havia sempre a presença de um adulto disposto a propor atividades “estimulantes”, pronto para interferir nas pequenas e corriqueiras crises por um brinquedo, falando frases “educativas” do tipo “agora é a vez dela”. Dirigindo a cena, basicamente. Embora com a melhor das intenções, os pais simplesmente não dão a chance para que as crianças “se virem” um pouco (crianças, neste caso, que deixaram de ser bebês há uns 3 ou 4 anos).

A palavra mais fartamente pronunciada por pais, mães e babás, naqueles dois dias, foi “cuidado!”

Numa das manhãs, estávamos todos no meio da atividade recreativa matinal de dar comida aos bichos (que não sei como não explodem, na alta temporada), e tamanha foi a intensidade da advertência proferida pela mãe, que olhei assustada para trás, já me prontificando a ajudar a criança diante do perigo, que parecia iminente.

Pensei que pudesse ser uma cobra, ou que um tigre tivesse se materializado naquele gramado bem cuidado, ou, até, que o lobo-mau tivesse pulado para fora do livro que estava na brinquedoteca. Mas não, o comando, quase histérico, era dirigido para uma “perigosíssima” poça enlameada. Poderia, também, segundo tais critérios, ser para uma rampinha escorregadia, uma formiga, uma vontade súbita de sair correndo, coisas assim. Os pequenos exploradores sofrem. Não se machucam, não se sujam, mas sofrem…

O ponto alto, e mais representativo da atitude que descrevo aqui, veio de uma mãe que levou, para seus gêmeos de 3 anos, todas as refeições prontas de casa! Levou até a sobremesa (potinhos de Danoninho), que ela deve considerar mais “seguros” do que aquelas frutas naturais, cuja procedência desconhece.

Os clubes, as praças, os shoppings de São Paulo estão repletos destas mães e destes pais. Não só deles, é claro. Mas este parece ser um padrão bastante freqüente.

É justamente em uma via, não oposta, talvez em bifurcação a esta, que vemos crescer nas pesquisas a expressão de um desejo por valores maternos mais leves, livres e soltos. Mães que abrem mão do excessivo controle e que acolhem imprevistos e imperfeições com maior boa-vontade. Um pouco menos de assepsia, um pouco mais de sujeira. Mas, todo mundo, é claro, sempre querendo acertar.

Denise Gallo e Renata Petrovic são sócias da Uma a Uma.

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