O Passar do Tempo

Era um domingo ensolarado e fomos passear no zoológico. Diversão garantida para quem é criança. Eu, pessoalmente, me sinto bem melancólica quando vejo aqueles animais presos e entediados, com suas vidinhas bestas enjauladas. Encontrei uma amiga antiga, que também passeava com seus filhos e, entre uma onça cansada aqui, uma fila de sorvete ali e um berro para chamar filho acolá, conversamos sobre a vida.

Os filhos estão crescendo e vão nos dando esta nova dimensão do passar do tempo. Minha amiga, perto, pertíssimo dos 40 anos, a certa altura, desabafou: “não sei se estou preparada para envelhecer”. Fui obrigada a lembrá-la que o tempo não vai parar de passar, só porque ela não se sente preparada para lidar com seus efeitos. Ou defeitos, em nossa cultura.

Pensamos juntas sobre esta estranha e perversa equação contemporânea: viver mais, de um lado; não envelhecer, de outro. A juventude é o maior valor, mas, cada vez mais, as pessoas serão velhas por muito mais tempo do que serão jovens. Se não acharmos isto bom, estamos lascados.

Hoje estava lendo a revista Serafina, da Folha de São Paulo, e voltei a pensar no assunto. A maior parte da matérias trata de gente. Nesta edição, são 13 perfis, entrevistas e reportagens sobre pessoas. Mais da metade, mulheres e, entre estas, quase todas com mais de 50 anos. Ana Jobim, 53, Denise Dummont, 53, Helena Ramos, 55, Rosa Lemos de Sá, por aí, Maria Bethânia, 62. Descontados os coloridos poéticos que as revistas adoram fazer em “perfis do bem”, a leitura mostra que não há, necessariamente, um “auge” na vida. Isso, é claro, se nos reeducarmos para desconstruir a associação auge/juventude. As mulheres entrevistadas já conversaram com o capeta. Tiveram muitas perdas. Mas vivem emaranhadas numa trama de recolhimento e expansão, à frente de projetos vivos, com os quais se misturam e misturam suas histórias de vida.

Não há como não notar o contraste entre estas reportagens e as páginas das publicidades com as quais são intercaladas. Coincidentemente, a revista tem 13 publicidades que mostram gente. Quase todas mulheres e… TODAS jovens!

Não sei não, mas quando me lembro dos movimentos do corpo da Bethânia no palco, do seu cabelo comprido e grisalho, das suas mãos e seu rosto marcados, da intensidade e da harmonia de sua presença, não dá para não perguntar o óbvio: estamos buscando qualidade e beleza nos lugares certos?

Denise Gallo e Renata Petrovic são sócias da Uma a Uma.

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