
O consumidor está cauteloso. O sentimento de insegurança causado pela crise financeira mundial, vai, aos poucos, afetando os planos de consumo das famílias. Embora a FGV aponte para uma melhora no indicador que mede a confiança do consumidor brasileiro na economia no mês de janeiro, o mesmo levantamento mostra que cresceu a parcela daqueles que pretendem gastar menos com bens duráveis. Desobedientes! O presidente Lula mandou todo mundo consumir e até nos ameaçou com seu raciocínio macroeconômico: se o trabalhador parar de consumir porque está com medo de ser mandado embora, aí é que ele vai ser mandado embora, porque o consumo diminui, a economia desaquece e o desemprego cresce. Ou seja: todos às compras! Já! Se não gastar, você será demitido e a culpa vai ser sua!
Nos EUA, a preocupação é intensa. E deve ter ficado ainda mais, depois do anúncio do corte de 75 mil vagas, feito ontem - em apenas um dia - por multinacionais americanas e européias. Nos próximos dias, serão divulgados os novos indicadores de confiança do consumidor americano (o de dezembro foi o mais baixo da história). Mas, as mulheres, comandantes do consumo, já estão dando sinais de que não estão para brincadeira. Elas estão segurando as rédeas e tomando conta do orçamento. Pesquisa feita pela consultoria de varejo Miller Zell mostrou que as mulheres estão agindo (e mais do que os homens): 68% estão gastando menos em restaurantes, 50% trocaram mercearias sofisticadas por redes que oferecem descontos, 87% estão trocando de marcas, para gastar menos.
Cautelosas, responsáveis e… early adopters! Sim, elas estão super sintonizadas com a mais nova moda da estação: a vida simples. A simplicidade é tendência, os analistas já avisaram. Está até na capa da revista Época: “Foi-se a era do desperdício. Nasce um novo capitalismo, inspirado numa vida mais frugal, mais barata – e mais feliz”.
Boa notícia, né? Nasceu o novo capitalismo! E nele, as pessoas são menos consumistas, passam mais tempo com os amigos, aprenderam a viver com menos. Menos ganância, menos ansiedade, mais sossego. O meio-ambiente agradece, nossos filhos também. Que lindo! E as marcas, nesse novo capitalismo? Seguirão esta tendência? A Apple deixará de lançar produtos que provocam filas de espera? A Prada fará apenas uma coleção por ano, simplezinha e acessível? A Philips lançará uma grande campanha para que os clientes usem suas TV’s antigas por mais tempo? A Nike nos avisará que não há necessidade de tantos acessórios para correr no parque? Realmente, seria um alívio! Seria…
A primeira providência para quem quer embarcar nesta tendência: desligar a TV e passar longe da banca de revistas. É claro, pois como seria possível parar de desejar as coisas vendo TV ou folheando revistas? A vida simples das revistas é cheia de charme e estilo. Não é para qualquer um. Aliás, não é simples.
Vamos começar pela capa da própria Época: uma paisagen bucólica, um céu azul a perder de vista, uma bicicleta. Agora olhe pela sua janela. Viu como a simplicidade não é assim tão simples? A coisa toda tem que ter estilo. Não é só desencanar e pronto. Demanda dedicação e, por assim dizer… dinheiro para consumir a vida simples. Por isso existem revistas especializadas em nos ensinar a ser simples.
A Real Simple, por exemplo. Uma revista americana, linda, cujo slogan é: life made easier. Já vou avisando: pula a primeira página, para não se confundir. Nela, um anúncio de página dupla mostra, de um lado, um moço pescando num barquinho (simples) e, do outro, o HUMMER H3 que o levou até lá (muito simples). Ou seja, para desfrutar dessa vida simples, é preciso ter ganho muito bônus com a especulação financeira… No mais, a revista ensina a organizar closets, curtir a bagunça das crianças, viver com qualidade. Dê uma olhada nas imagens e veja quanta simplicidade.

A vida simples também é uma marca. Um estilo de vida que vai sendo propagado por imagens idealizadas, marcas descoladas, produtos caros, desejos. Essa é a real tendência. Afinal, o Lula mandou: é preciso consumir!
Denise Gallo e Renata Petrovic são sócias da Uma a Uma