Por que?

Uma menininha de 6 anos - elas, sempre elas, essa inesgotável fonte de questionamentos inspiradores - acorda de manhã e pergunta à mãe:

“Mamãe, existe menina que namora menina?”

Antes de responder, a mãe, sonada, pensa: “o que é isso? Com o que essa garota sonhou? De onde vem essa pergunta logo cedo? Bom, vamos lá…”

“Sim, existe.”

“Por que?”

O que significa este “por quê?”, especula novamente a mãe-pensadora, agora já menos sonada. Seria apenas uma vinheta de passagem, quase um TOC infantil, que sempre se repete, independentemente do tema? Ou seria a hegemonia da cultura heterossexual já pesando na existência da menininha de 6 anos? Disney, Disney… Bom, vamos lá, novamente…

“Porque gostam.”

Mas questionamentos de menininhas de 6 anos não se contentam com pouco:

“E aí pode ter filho?”

“Não, quer dizer, sim, quer dizer, depende, quer dizer: vamos tomar nosso café-da-manhã?”

A mãe fala que, para ter filho, precisa de um pai e de uma mãe. Fala, mas, imediatamente percebe que esta informação está totalmente desatualizada, do ponto de vista político e científico (mais científico do que político, é verdade). A menininha, então, derrama sua liquidez-pós-moderna e resolve o problema: “ah, tudo bem, vai ter um pai de cabelo comprido”. Ao menos esteticamente, está tudo resolvido. Fica assim estabelecido, nesta conversa matinal básica, que meninas que namoram meninas podem ter filhos e pronto.

O caso de Adriana Tito Maciel e Munira Khalil El Ourra está aí para mostrar a atualidade do pensamento da menininha de 6 anos. As duas, que vivem juntas há dois anos, são mães biológicas de um casal de gêmeos que acaba de nascer. Uma doou os óvulos, que foram fecundados pelos espermatozóides de um doador anônimo e implantados no útero da outra. As mães, agora, lutam para conseguir na Justiça o direito à dupla maternidade. Trata-se de um pedido inédito no país. Segundo especialistas, com poucas chances de ser concedido.

A legislação e os padrões sócio-culturais estão andando bem mais devagar do que a ciência. Mas, é claro que, cada vez mais, as configurações familiares vão se multiplicar. Assim como vão se multiplicar as definições de gênero, sexo, maternidade, paternidade. Voltando à menininha de 6 anos, sua pergunta escancara, no mínimo, uma realidade: refletir sobre os padrões que estabelecem o que é “normal” e o que é “esquisito” é fundamental para aqueles que educam as novas gerações.

Denise Gallo é sócia da Uma a Uma.

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3 Comentários »

  1. Ane disse,

    14 de Maio de 2009 @ 16:24

    Que achadoooo esse blog!
    Já acompanho o trabalho de vcs pela Tpm, e acho demais!
    Sou estudante de Ciências Sociais, e pesquiso a temática de gênero e sexualidade, pela vertente antropológica! =)

    beijos!

  2. robertoney disse,

    15 de Maio de 2009 @ 22:59

    Com certeza, são essas respostas que as “mães” dão, que irão delinear as percepções dessas “menininhas”. O mundo acorda para a infinidade de possibilidades e de fatos que nele coexistem. As menininhas e os menininhos precisam serem educados dentro desse contexto de diversidade e de respeito aos outros pontos de vista.
    grande abraço!

  3. Giovana disse,

    6 de Junho de 2009 @ 15:37

    Excelente, De. O mundo sempre se transforma mais rápido do que a gente…

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