Arquivo de Julho de 2009

Coluna TPM

Minha coluna, publicada na TPM de julho, dentro da reportagem “Nojenta?“. Tema: excesso de higiene feminina ou mulher limpinha, lisinha, sem pelos, sem cheiro e sem graça…

Neutralize-se
Por Denise Gallo

Após meses de sedução mútua, encontram-se na rua, por acaso, e resolvem tomar um chope. Um frio na barriga puxa o outro e acabam indo para a casa dela. Mas ela sente um mal-estar. Sabe que não está preparada. Precisa resolver algumas pendências o quanto antes. Por isso, pedirá a ele que escolha uma música e correrá até o banheiro. Será rápida. Com a base líquida, cobrirá as manchinhas na pele. Com o creme depilatório, fará sumir os pelos intrusos. Com o lenço umedecido íntimo, eliminará “odores naturais”. Umas gotinhas de perfume e - agora sim! - sente-se adequada e feminina. Pronta para trocar fluidos higienizados noite adentro.

“Neutraliza odores naturais femininos”. Essa promessa, estampada em tantas embalagens de produtos íntimos, é a mais perfeita tradução do comando sórdido que dá como certo que odores naturais femininos são indesejados. Aliás, quando se trata do corpo feminino, a coluna dos “naturais indesejados” não para de crescer. Nada está bom do jeito que é. O Photoshop invade a vida real, na forma de corretivos, lenços umedecidos e aromatizantes bucais, para retocar cheiros e sabores, texturas e cores, rugas e manchas. Neutralizada em suas singularidades, a mulher lisinha, sequinha, com sabor de cereja e cheiro de perfume é a mulher desejável. Lição a ser aprendida desde cedo, como comprova a revista mui-amiga das adolescentes e suas matérias sobre produtos para beijar bem ou sobre lencinhos íntimos que “depois que você experimentar se tornarão itens de primeira necessidade em sua bolsa”. Por essas e outras fica mais fácil entender porque uma autora que inventa uma personagem que gosta do cheiro do seu corpo, uma coisa aparentemente simplória, é aclamada mundo afora como nova feminista.

É verdade que os médicos dispensam boa parte das traquitanas ofertadas nas prateleiras, quando orientam a higiene adequada, em geral muito bem resolvida com água e sabão. De qualquer forma, elas não são vendidas como meros produtos de higiene. Há uma teia de significados sugerindo que, mais do que limpar, trata-se de um ato de amor, de respeito, de cuidado consigo mesma. Mulheres passam publicidades inteiras acariciando-se em banhos intermináveis enquanto enfatizam que isso é ser feminina. “Cultive sua feminilidade todos os dias”, sugere o comercial de um. “Deixa a mulher ainda mais feminina”, promete o site do outro. Feminina e neutralizada.

Voltando à garota do início, podemos torcer para que, quando ela tentar ganhar tempo com o truque da música, ele fale que não precisam de música porque prefere ouvir a respiração dela. Ela, então, não terá como fugir para a sessão de assepsia no banheiro e, meio aflita, terá que vivenciar os cheiros e sabores do seu corpo em um dia normal. Mas, num lance inesperado da vida, esquecerá tudo o que leu nas revistas sobre o poder da pele aveludada e, um pouquinho mais livre, experimentará um outro tipo de intimidade. Nada neutralizada dessa vez.

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Cena deprimente

Toda mãe ou todo pai – ou, pelo menos, os paranóicos - já foi invadido pelo horror de imaginar o que aconteceria a seus filhos se eles, pais e mães, batessem as botas. Se os filhos são pequenos, então, essa é uma imagem tão insuportável que nem dá para descrever.

Para quem, de vez em quando, é assombrado por esse pensamento cruel e doloroso, o funeral de Michael Jackson foi um verdadeiro filme de terror. E mostrou que a fantasia de que, na falta da proteção dos pais, os filhos poderão ser jogados na cova dos leões tem mesmo fundamento. Michael, do seu jeito excêntrico, possivelmente exagerado, conseguiu preservar seus filhos dos holofotes por anos e anos. Não dá pra saber se a forma que escolheu para fazer isso, cobri-los com panos esquisitos, de fato os preservou ou os expôs ainda mais. De qualquer forma, num mundo sedento por imagens, as imagens dos seus filhos estavam protegidas do público. Era sua opção. Obsessivamente mantida. Ainda que sua cor e seu nariz não parassem de mudar, essa decisão se manteve estável.

Por isso, é chocante que, apenas alguns dias após sua morte, esses filhos tenham sido expostos ao mundo de forma tão ostensiva. Incentivados pela família. Dos rosto cobertos de pouco tempo atrás ao choro em close transmitido para o mundo inteiro, sem escala. Que desespero Michael Jackson deve ter sentido caso tenha assistido à transmissão lá do céu, ao ver sua filhinha naquele palco, chorando, nervosa, expondo para o mundo inteiro um momento de tanta fragilidade. Aqueles tios e tias em volta da menina, preocupadíssimos em arrumar o microfone, certificando-se que a potência midiática daquele ato (espontâneo?) não fosse enfraquecida por um simples microfone desajeitado, assustou. E funcionou. Em todos os jornais, sites, programas, o registro do momento, qualificado como o mais emocionante da cerimônia-circo, classificado como a máxima homenagem.

Uma menina de 11 anos, filha da mega-celebridade mundial, agora órfã de pai, chorando em cima de um palco, declarando seu amor: uma combinação perfeita para desencadear choros em série. Chamar isso de homenagem ao pai que nunca a quis sequer fotografada ao seu lado é um pouco estranho. Mas o que não é estranho em tudo o que cerca a morte de Michael Jackson?

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Natural?

Minha coluna, publicada na revista TPM.

O parto é um momento de intimidade. Intimidade da mulher com seu corpo, da mulher com seu parceiro, da mulher com seu bebê. Da mulher com seu médico, com o assistente do médico, com a enfermeira, a outra enfermeira, o anestesista, o fotógrafo, o cameraman e, eventualmente, a platéia de amigos e familiares emocionados, que se posta do lado de fora do vidro, para ver o show da vida começar. A falta de privacidade é só um dos desafios da experiência. Há ainda que abstrair-se da luz forte, dos sons estranhos, dos instrumentos ameaçadores dispostos na bancada, do medo que o médico tenha outro compromisso, etc., etc.

Mas, não é sempre assim. Muitas mulheres fazem escolhas - aquelas que podem escolher - para contar com tempo, espaço e dinâmicas que cooperem com o desejo por uma experiência mais intimista e menos intervencionista, em que o corpo avance até o nascimento de forma natural. A busca pelo que é natural poderia ser um movimento simples, intuitivo… natural. Física e emocionalmente. Cada um a seu tempo, em contato com novas sensações, imprimindo seus próprios significados às experiências vividas, Mas as práticas naturais da vida também já foram colonizadas. Ao parto natural e à maternidade já foram coladas narrativas-modelo, ultra idealizadas, que dão forma ao que viver e sentir. Mulheres-deusas, no mínimo. Nas articulações desse mecanismo, um paradoxo: é preciso aprender a ser natural. Cursos, livros, terapias, produtos. Mas, o que há tanto a aprender, se é para ser natural? Ou seria mais o caso de desaprender? Desaprender, para resgatar a natureza feminina, essência de toda mulher? Aí começa um outro problema…

A natureza feminina é um conceito perigoso. Dissemina-se na figura da mulher “misteriosa”, que poderá ser decifrada a partir dos seus hormônios. As feministas se dedicaram a desconstruir esta noção, lá no século passado, separando sexo biológico e gênero e mostrando que muitos dos comportamentos femininos tidos como “naturais” são, na verdade, produtos da cultura. Mas na mídia, por exemplo, o mito da natureza feminina sobrevive forte e saudável, em discursos pontuados por novíssimas pesquisas biomédicas ou por curiosas formulações evolucionistas. Nos domínios deste mito está o mais incisivo dos imperativos que recaem sobre a mulher: só é mulher de verdade, aquela que é mãe. Não quer casar? Muito interessada em seu trabalho? Gostando da sua vida sem filhos? Tudo bem, tudo ótimo, mas aguarde, porque, no frigir dos óvulos, o relógio biológico vai cobrar a conta.

Parece rigoroso e cruel com aquelas que escolhem trilhar outros caminhos, desobedientes à tarefa de procriar. Precisamos aprender a refletir criticamente sobre os muitos discursos impositivos, sobre o que é ser mulher e como ser mulher. E, mais ainda, de motivar este pensamento crítico nas filhas dos partos naturais que um dia escolhermos, SE escolhermos ter.

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