Arquivo de 10 de Julho de 2009

Cena deprimente

Toda mãe ou todo pai – ou, pelo menos, os paranóicos - já foi invadido pelo horror de imaginar o que aconteceria a seus filhos se eles, pais e mães, batessem as botas. Se os filhos são pequenos, então, essa é uma imagem tão insuportável que nem dá para descrever.

Para quem, de vez em quando, é assombrado por esse pensamento cruel e doloroso, o funeral de Michael Jackson foi um verdadeiro filme de terror. E mostrou que a fantasia de que, na falta da proteção dos pais, os filhos poderão ser jogados na cova dos leões tem mesmo fundamento. Michael, do seu jeito excêntrico, possivelmente exagerado, conseguiu preservar seus filhos dos holofotes por anos e anos. Não dá pra saber se a forma que escolheu para fazer isso, cobri-los com panos esquisitos, de fato os preservou ou os expôs ainda mais. De qualquer forma, num mundo sedento por imagens, as imagens dos seus filhos estavam protegidas do público. Era sua opção. Obsessivamente mantida. Ainda que sua cor e seu nariz não parassem de mudar, essa decisão se manteve estável.

Por isso, é chocante que, apenas alguns dias após sua morte, esses filhos tenham sido expostos ao mundo de forma tão ostensiva. Incentivados pela família. Dos rosto cobertos de pouco tempo atrás ao choro em close transmitido para o mundo inteiro, sem escala. Que desespero Michael Jackson deve ter sentido caso tenha assistido à transmissão lá do céu, ao ver sua filhinha naquele palco, chorando, nervosa, expondo para o mundo inteiro um momento de tanta fragilidade. Aqueles tios e tias em volta da menina, preocupadíssimos em arrumar o microfone, certificando-se que a potência midiática daquele ato (espontâneo?) não fosse enfraquecida por um simples microfone desajeitado, assustou. E funcionou. Em todos os jornais, sites, programas, o registro do momento, qualificado como o mais emocionante da cerimônia-circo, classificado como a máxima homenagem.

Uma menina de 11 anos, filha da mega-celebridade mundial, agora órfã de pai, chorando em cima de um palco, declarando seu amor: uma combinação perfeita para desencadear choros em série. Chamar isso de homenagem ao pai que nunca a quis sequer fotografada ao seu lado é um pouco estranho. Mas o que não é estranho em tudo o que cerca a morte de Michael Jackson?

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