Arquivo de Agosto de 2009

Coluna TPM

Minha coluna, publicada na TPM de agosto, na reportagem “Mentira!”

Vidas Editadas
Por Denise Gallo

Nunca compare seu interior com o exterior dos outros. A frase, muito usada por um amigo meu, é conselho essencial para a sobrevivência em tempos de biografias lapidadas. Repita-a mentalmente quando encontrar aquele casal que adora relatar viagens românticas inesquecíveis, quando conversar com a ex-colega de faculdade que está à mil na carreira, quando estiver diante das fotos daquela família linda, que não é a sua, e parece tão perfeita. Agora, se você gosta de ler entrevistas com mulheres famosas em revistas femininas, faça um favor a si mesma e tatue a frase na mão para jamais perdê-la de vista. Assim, chamadas de capa do tipo “hoje sou uma mulher que tem tudo”, terão o destino que merecem: sua indiferença.

Estariam todos mentindo? Provavelmente não. Apenas elaborando narrativas atraentes. Realidade com toques de ficção. Ou ficção com toques de realidade. Estes limites andam mesmo muito tênues. Mentiras sinceras, como diria Cazuza. As vidas narradas podem soar tão bem… Com discursos apoiados em experientes consultores de imagem, então, são verdadeiros bálsamos para reforçar nosso imaginário de sucesso. Quando o que conta é a visibilidade, passar em branco é o pior dos pesadelos. Mas, com uma boa estratégia de branding, todo mundo pode lançar um novo “eu”, posicioná-lo no mercado das identidades bem-sucedidas e melhorar sua performance.

Invente-se, depois reinvente-se
Lembro de uma matéria publicada, há algum tempo, na maior revista do país, sobre a importância de esculpir uma marca pessoal convincente, da mesma forma que as empresas fazem com os seus produtos, com a ajuda de profissionais especializados. O renomado especialista em autopromoção dava o tom: “você precisa ser a sua melhor criação”. A melhor coisa era o teste de 32 questões para avaliar “o que você oferece, para quem e o que tem de diferente”, se “sua aparência reflete quem você é e está adequada ao seu mercado”, se “você sabe dizer sem pestanejar quais são suas grandes paixões na vida” e se “você sabe qual é o próximo passo para a evolução da sua marca”. Para aqueles que não atingissem desempenho satisfatório, o implacável veredicto: “você é invisível”.

Munidos de subjetividades bem planejadas, expressas em “lifestyles” coerentes e atualizados, sem nunca perder o bonde das tendências, os indivíduos/marcas ocupam seu lugar no mundo/mercado. Fazendo aquele esforço diário para acreditar no personagem. Mas, o bom é perceber que nem sempre a vida aceita planos bem bolados só porque são bem bolados. E, quando as coisas dão errado e a marca sai de linha, vem a incrível oportunidade de olhar para o vazio e perceber na fragilidade a maior das inspirações. Para pensar sobre isso, sugiro o filme “Enquanto o sol não vem”, de Agnès Jaoui. Uma linda homenagem àquilo que não queremos mostrar sobre nós mesmos.

Denise Gallo é sócia da Uma a Uma, empresa de inteligência de mercado especializada em comportamento feminino.

Comentários (6)

A retomada

O nome da nossa entrevistada é Ana Lígia. Tem 41 anos, é arquiteta e mãe de duas meninas. Está separada há um ano e meio. Não iremos descrever sua extenuante rotina de mãe, profissional, dona-de-casa, solteira, amiga, filha, paciente, neo-baladeira etc., porque já dá pra imaginar. O resumo do resumo: não dá tempo!

Ana Lígia gosta de pensar que um ano e meio ainda é pouco tempo para construir uma “vida nova”, mas é obrigada a discordar de si mesma cada vez que recebe uma notícia do seu ex-marido que, no mesmo ano e meio, já conseguiu emagrecer, voltar a surfar, ser promovido, comprar uma casa na praia, viajar para os quatro cantos do mundo e casar-se com uma moça de 28 anos que, Ana Lígia soube esses dias, está grávida de 3 meses. Um ano e meio: tanto para uns, tão pouco para Ana Lígia.

Quando Ana Lígia sente-se sozinha, ela entra no site do IBGE. Ela gosta de se reconhecer nas estatísticas e lembrar que não, ela não está sozinha: a taxa de divórcios no Brasil subiu 200% entre 1984 e 2007; em 2007, para cada quatro casamentos civis, foi realizada uma separação; a idade média da mulher quando se separa é justamente 39 anos; é a mulher quem fica com a guarda dos filhos em 89% dos casos; os homens divorciados se casam mais do que as mulheres divorciadas e o casamento entre homens divorciados e mulheres solteiras foi a modalidade que mais cresceu entre os registros civis na última década. Ou seja, o IBGE é praticamente um anti-depressivo para Ana Lígia. Quantitativamente, Ana Lígia pertence.

Qualitativamente, as coisas são um pouco mais complicadas. Se, até pouco tempo atrás, Ana Lígia costumava ouvir as histórias de suas amigas solteiras com a curiosidade de um antropólogo, agora ela – plim! – escorregou para o lado da tribo. Mas não pôde escorregar completamente porque tinha que levar as meninas à escola hoje cedo. Seu rito de passagem - aquele momento em que, depois de 10 anos de casada e um ano e meio separada, Ana Lígia se verá protagonizando uma cena íntima com um novo homem, também conhecida como sexo – ainda está por acontecer. Pensar nisto provoca em Ana Lígia um misto de euforia e pânico. Mais euforia do que pânico, talvez, dependendo da quantidade de luz que ela projeta na cena imaginária. Quanto mais escuro melhor, porque Ana Lígia anda cheia de encanações com o seu corpo.

O que está acontecendo na vida de Ana Lígia merece muita atenção. Segundo suas próprias palavras, “turbilhão de mudanças, turbilhão de emoções”. Reorganização total. Da forma como passou a administrar a casa às mudanças nos hábitos de lazer. Dos novos amigos que fez às viagens só com as filhas. Do medo do primeiro Natal ao prazer de ficar em casa sozinha. Do novo planejamento financeiro à curiosidade sobre tudo o que está por viver. Novos hábitos, novas necessidades, novos consumos. Ana Lígia precisa ser melhor compreendida para ser melhor representada e comentou conosco que, evidentemente, nunca se reconhece nas publicidades que vê. Mas isso não é novidade.

No final de nossa conversa, Ana Lígia nos disse que talvez não faça sentido esperar por uma “vida nova” porque a “vida nova” é o que está rolando todos os dias e, apesar de todo o caos, ela não lembra de ter se sentido tão cheia de vida como agora. Isso sim é novo.

Denise Gallo é sócia da Uma a Uma, empresa de inteligência de mercado especializada em comportamento feminino.

Comentários (4)