A retomada

O nome da nossa entrevistada é Ana Lígia. Tem 41 anos, é arquiteta e mãe de duas meninas. Está separada há um ano e meio. Não iremos descrever sua extenuante rotina de mãe, profissional, dona-de-casa, solteira, amiga, filha, paciente, neo-baladeira etc., porque já dá pra imaginar. O resumo do resumo: não dá tempo!

Ana Lígia gosta de pensar que um ano e meio ainda é pouco tempo para construir uma “vida nova”, mas é obrigada a discordar de si mesma cada vez que recebe uma notícia do seu ex-marido que, no mesmo ano e meio, já conseguiu emagrecer, voltar a surfar, ser promovido, comprar uma casa na praia, viajar para os quatro cantos do mundo e casar-se com uma moça de 28 anos que, Ana Lígia soube esses dias, está grávida de 3 meses. Um ano e meio: tanto para uns, tão pouco para Ana Lígia.

Quando Ana Lígia sente-se sozinha, ela entra no site do IBGE. Ela gosta de se reconhecer nas estatísticas e lembrar que não, ela não está sozinha: a taxa de divórcios no Brasil subiu 200% entre 1984 e 2007; em 2007, para cada quatro casamentos civis, foi realizada uma separação; a idade média da mulher quando se separa é justamente 39 anos; é a mulher quem fica com a guarda dos filhos em 89% dos casos; os homens divorciados se casam mais do que as mulheres divorciadas e o casamento entre homens divorciados e mulheres solteiras foi a modalidade que mais cresceu entre os registros civis na última década. Ou seja, o IBGE é praticamente um anti-depressivo para Ana Lígia. Quantitativamente, Ana Lígia pertence.

Qualitativamente, as coisas são um pouco mais complicadas. Se, até pouco tempo atrás, Ana Lígia costumava ouvir as histórias de suas amigas solteiras com a curiosidade de um antropólogo, agora ela – plim! – escorregou para o lado da tribo. Mas não pôde escorregar completamente porque tinha que levar as meninas à escola hoje cedo. Seu rito de passagem - aquele momento em que, depois de 10 anos de casada e um ano e meio separada, Ana Lígia se verá protagonizando uma cena íntima com um novo homem, também conhecida como sexo – ainda está por acontecer. Pensar nisto provoca em Ana Lígia um misto de euforia e pânico. Mais euforia do que pânico, talvez, dependendo da quantidade de luz que ela projeta na cena imaginária. Quanto mais escuro melhor, porque Ana Lígia anda cheia de encanações com o seu corpo.

O que está acontecendo na vida de Ana Lígia merece muita atenção. Segundo suas próprias palavras, “turbilhão de mudanças, turbilhão de emoções”. Reorganização total. Da forma como passou a administrar a casa às mudanças nos hábitos de lazer. Dos novos amigos que fez às viagens só com as filhas. Do medo do primeiro Natal ao prazer de ficar em casa sozinha. Do novo planejamento financeiro à curiosidade sobre tudo o que está por viver. Novos hábitos, novas necessidades, novos consumos. Ana Lígia precisa ser melhor compreendida para ser melhor representada e comentou conosco que, evidentemente, nunca se reconhece nas publicidades que vê. Mas isso não é novidade.

No final de nossa conversa, Ana Lígia nos disse que talvez não faça sentido esperar por uma “vida nova” porque a “vida nova” é o que está rolando todos os dias e, apesar de todo o caos, ela não lembra de ter se sentido tão cheia de vida como agora. Isso sim é novo.

Denise Gallo é sócia da Uma a Uma, empresa de inteligência de mercado especializada em comportamento feminino.

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4 Comentários »

  1. Kelly disse,

    13 de Agosto de 2009 @ 11:11

    Engraçado como as historias são diferentes mas com os mesmos sentimentos. Os mesmos medos, anseios…

  2. tita berton disse,

    14 de Agosto de 2009 @ 21:10

    dê,
    a história se repete, mas estou quase nas estatísticas. depois de quase quatro anos separada, estou solteira e meus filhos já tiveram duas madrastas. a última é mãe da meia-irmã deles, que tem um ano. o pai dos meus filhos viaja pra bahia, pra pernambuco, pra boston. trabalha na praia muitas vezes.
    e eu digo cheia de orgulho que não troco minha vida por nada. viajo só com as crianças, mudei drasticamente meus hábitos de consumo e o tamanho da minha casa (tudo diminuiu, evidentemente). e eu nunca fui tão feliz.
    bj, tita

  3. Giovana disse,

    31 de Agosto de 2009 @ 23:30

    Excelente no conteúdo, na forma e com um final que também funciona como Prozac. Parabéns, Denise. Arrasou.

  4. Juliana e Márcia disse,

    6 de Setembro de 2009 @ 23:36

    Dê,
    Estamos rindo muito do seu texto. A Márcia se identificou totalmente com Ana Lígia e manda te dizer que nunca se sentiu tão feliz depois de 15 anos separada…e ainda solteira (não sabe até quando).
    Que habilidade a sua em tratar assunto sério com humor sofisticado. Coisa mais deliciosa de se ler!
    Beijos,
    Juliana

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