Arquivo de Março de 2010

Lanche, futebol e estudos de gênero

Queijo quente na padoca da estrada. Vários homens assistem ao futebol na TV. Todos quietos e muito compenetrados. Chamo o moço do balcão umas três ou quatro vezes até que ele, finalmente, resolve desviar os olhos do jogo e me dá alguma atenção.

O rapaz me olha como se dissesse: tenha a santa paciência! Precisa mesmo pedir agora? Ele repete tudo o que eu digo, possivelmente para ganhar tempo e ver mais um lance, antes de ser obrigado a levantar-se do seu banquinho vip para atender aos meus caprichos. Mais ou menos assim:

Eu: “por favor, eu queria dois queijos quentes no pão de forma.”
Ele: “dois queijos quentes? … … No pão de forma?”
Eu: “isso. E dois sucos de laranja.”
Ele: “dois sucos? … … De laranja?”

Os dois queijos quentes não parecem ser um problema para ele, porque a execução desses ele delega, berrando, ao chapeiro que está no outro balcão. Ele que se vire. Mas os dois sucos de laranja… Pô, será que eu não entendo? Não estou vendo a posição do espremedor de laranjas? Não percebo que, para fazer meus dois sucos de madame desconectada da realidade, ele será obrigado a ficar de costas para a televisão? Em que planeta eu vivo? Não estou vendo que o São Paulo e o Corinthians estão jogando? Onde está o respeito às individualidades? Eu não podia ter pedido uma Coca e pronto? Por que as mulheres são tão complicadas?

É claro que ele não diz nada disso. Mas pensa. Ele e os demais rapazes que estão debruçados sobre o balcão, olhos esbugalhados, fixos no monitor. Aliás, todos eles devem ter dito algo semelhante em casa, antes de resolverem assistir ao jogo, em paz na padoca, longe desses inconvenientes pedidos femininos.

De costas para a TV, ele prepara meu suco e eu fico ali, absorta em meus pensamentos, enquanto olho minha filha andando pra lá e pra cá. Mais precisamente, penso em como evoluí como mãe, desde os tempos em que esterelizava a chupeta a cada vez que ela caía no chão da minha própria casa. Como me abri ao fascinante mundo das bactérias para chegar até esse queijo quente na padoca da estrada. Nem gel antisséptico eu carrego mais…

Já estamos saboreando nosso queijo quente engordurado quando, de repente, o Corinthians faz gol. GOOOOOOOLLLLLLLLL. Todos os homens, mudos até então, agora berram, urram, batem as mãos no balcão várias vezes e, finalmente, verbalizam sua forte emoção: “pu*** que pa***, cara****!!!!!”

Depois de quase cair do banquinho, tamanho o susto que leva, minha filha me olha, atônita, e seu olhar é de pura interrogação. Ela não me pergunta nada, mas leio seus pensamentos: “você pode me explicar o que significa isso, já que você é minha mãe e, como você mesma diz, sabe de coisas que eu ainda não sei?” Eu não respondo nada, mas ela também deve ler meus pensamentos: “não, não posso te explicar porque não faço a menor ideia.” Ela, então, também resolve verbalizar sua forte emoção e diz: “tenho vontade de matar esses homens.” Compreendo, mas não apoio essa reação motivada pela mera construção cultural dos gêneros. Mas acho desnecessário prosseguir a conversa porque há coisas na vida que ela vai ter que entender - ou não entender - sozinha.

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Era uma vez…

Não estamos na Idade Média. Não há castelos, não há cavaleiros, nem carruagens. Tudo se passa em uma linda praia. Praia de areia branca e fofa, mar verde e muitos peixes. Ali, o céu é bem azul de dia e muito, muito estrelado à noite. Encantos e feitiços, há aos montes. Príncipes e princesas, também. Todos aprendendo a lidar com hormônios esquisitos que começam a inundar seus cérebros bem confusos.

Há muitas bruxas nesta história. A maior parte delas, as princesas só conhecerão no futuro. Um futuro próximo, talvez. Há a bruxa culpa, a bruxa obsessão, a bruxa não posso engordar, a bruxa não posso envelhecer, a bruxa boicote a sonhos, a bruxa preciso do que na verdade não preciso… e muitas outras, que estão só esperando sua hora para começar a atazanar a vida das lindas princesas.

Nossa princesa favorita - neste reino à beira-mar - tem 14 anos. Todos os anos, ela passa férias nesta praia por tempo suficiente para que seus pés pareçam tudo, menos pés de princesa. E sua pele fique moreninha, moreninha (no tempo dessas princesas, o sol era um grande amigo e ninguém via nenhuma razão para se proteger dele).

Este reino é mesmo um lugar encantado para nossa princesa. E é também seu grande segredo. Foi neste reino que ela descobriu que se sente sozinha e que gosta de se sentir assim. Descobriu que dentro dela, existem duas, talvez mais. Descobriu o amor e o prazer. Descobriu a raiva, a aflição e muitos momentos incríveis dos quais se lembrará para sempre.

Quando nossa princesa se senta diante do mar, no final da tarde, não sabe direito o que sente, mas sabe que sente o sentimento mais forte que já sentiu, que enche seu peito da certeza de que, se conseguir se livrar de todas as bruxas que ainda virão, ela vai viver uma vida linda e cheia de aventuras.

Nossa princesa tem uma enorme urgência de viver. Quer crescer logo. Ser uma princesa adulta. Viver todos os amores que imagina que vai viver. E sua imaginação é muito ativa! Mas isso é a cabeça da princesa. Seu corpo está preguiçoso da vida. Não quer crescer não. Quer ser o mais criança de todas as outras princesas do reino. Para a alegria da mãe da princesa. Alegria boba que a princesa só conseguirá entender no futuro, quando também for uma rainha, cuidando de outra princesa.

Foi numa noite - neste reino à beira-mar - que a princesa encontrou uma fada. Ela era muito linda, roxa e brilhante, falava devagar, bem pausadamente. Seu nome era Paciência. Ela disse assim à princesa: “sou sua fada e seu maior desafio. Vou te proteger e também te ameaçar. Muitas vezes lutaremos juntas contra todos os inimigos. Outras vezes, é comigo que você lutará. Brincaremos de esconde-esconde, às vezes rindo, às vezes não. Você achará que sou eu a inimiga, mas é comigo que chegará aos lugares mais maravilhosos e encontrará os tesouros mais preciosos. Começaremos nosso jogo agora”. Dizendo isso, a fada desapareceu. Nossa princesa começou a chamá-la, chamá-la até gritar… Ficou furiosa e saiu chorando e batendo o pé. Ainda levaria algum tempo para saber que jogo era aquele e porque era preciso jogá-lo…

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Liberdade vigiada

Minha coluna, publicada na TPM de março, na reportagem “Vai subir?”

“Sexo 40 graus.” “O melhor sexo da sua vida.” “O clímax de 43 segundos.” “Os portões do paraíso.” “Orgasmo já!” “Explosão de prazer.” “Hot!” “Sexy!” “Tórrido!” “Garota, chegou a sua vez.” Nas chamadas de capa da “revista feminina mais vendida no mundo”, a nova velha ordem: goze hoje! Goze sempre! Para sempre. Do ponto de vista masculino, só mesmo uma ereção permanente para dar conta dessa máquina de prazer, dessa mulher assustadoramente livre, poderosa, dona do seu corpo e do seu desejo.

Assustador, entretanto, é notar que a mulher que pulsa de prazer nas páginas da revista não parece livre, nem poderosa, não parece dona do seu corpo, nem do seu desejo. Sua imagem é a de uma obediente seguidora de regras que copia o look de uma, batalha pela barriga de outra, lambe de cima para baixo, agora de baixo para cima, segura no ângulo x, apalpa com a pressão y. Aprendeu? Recorte e leve na bolsa, para consultar. Que par perfeito: a mulher turbinada pelas técnicas do desejo e o homem turbinado pela pílula da virilidade. Dois tristes personagens de um mundo obeso de sensações, explodindo de excitação produzida por corpos perfeitamente artificiais. Um mundo de espelhos.

Jovens saudáveis tomam remédio para a impotência sem serem impotentes. Como assim, sem serem impotentes? Somos todos impotentes. É impossível não ser impotente diante desse ideal de prazer. Nunca conseguiremos sentir essa profusão de sensações ininterruptas. Para sempre haverá um abismo entre a mediocridade de nossas vidas comuns e a usina de energia que bomba no trio elétrico da mídia. “Vivo tão intensamente que não dá tempo para ter medo, insegurança” disse, mês passado, a estrela de muitas capas. Ela disse e a revista, é claro, destacou a frase, que funciona como uma espécie de síntese de seu projeto pedagógico. Mas que graça tem viver assim? Que graça tem uma ereção que nunca acaba?

Uma vez ouvi de um amigo que a fragilidade era o que mais o interessava nas pessoas. Um ponto de verdadeira conexão. E que, por isso mesmo, ele não fazia a menor queståo de esconder as suas ou, mesmo, de resolvê-las. Na época, devo ter sugerido que ele aumentasse a frequência das suas sessões de análise. Hoje, pediria imediatamente o número do seu analista. Quando o efeito do remédio passar, os espelhos ficarem empoeirados e, eventualmente, o par perfeito se olhar de perto, é provável que também concorde com meu amigo.

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