Lanche, futebol e estudos de gênero
Queijo quente na padoca da estrada. Vários homens assistem ao futebol na TV. Todos quietos e muito compenetrados. Chamo o moço do balcão umas três ou quatro vezes até que ele, finalmente, resolve desviar os olhos do jogo e me dá alguma atenção.
O rapaz me olha como se dissesse: tenha a santa paciência! Precisa mesmo pedir agora? Ele repete tudo o que eu digo, possivelmente para ganhar tempo e ver mais um lance, antes de ser obrigado a levantar-se do seu banquinho vip para atender aos meus caprichos. Mais ou menos assim:
Eu: “por favor, eu queria dois queijos quentes no pão de forma.”
Ele: “dois queijos quentes? … … No pão de forma?”
Eu: “isso. E dois sucos de laranja.”
Ele: “dois sucos? … … De laranja?”
Os dois queijos quentes não parecem ser um problema para ele, porque a execução desses ele delega, berrando, ao chapeiro que está no outro balcão. Ele que se vire. Mas os dois sucos de laranja… Pô, será que eu não entendo? Não estou vendo a posição do espremedor de laranjas? Não percebo que, para fazer meus dois sucos de madame desconectada da realidade, ele será obrigado a ficar de costas para a televisão? Em que planeta eu vivo? Não estou vendo que o São Paulo e o Corinthians estão jogando? Onde está o respeito às individualidades? Eu não podia ter pedido uma Coca e pronto? Por que as mulheres são tão complicadas?
É claro que ele não diz nada disso. Mas pensa. Ele e os demais rapazes que estão debruçados sobre o balcão, olhos esbugalhados, fixos no monitor. Aliás, todos eles devem ter dito algo semelhante em casa, antes de resolverem assistir ao jogo, em paz na padoca, longe desses inconvenientes pedidos femininos.
De costas para a TV, ele prepara meu suco e eu fico ali, absorta em meus pensamentos, enquanto olho minha filha andando pra lá e pra cá. Mais precisamente, penso em como evoluí como mãe, desde os tempos em que esterelizava a chupeta a cada vez que ela caía no chão da minha própria casa. Como me abri ao fascinante mundo das bactérias para chegar até esse queijo quente na padoca da estrada. Nem gel antisséptico eu carrego mais…
Já estamos saboreando nosso queijo quente engordurado quando, de repente, o Corinthians faz gol. GOOOOOOOLLLLLLLLL. Todos os homens, mudos até então, agora berram, urram, batem as mãos no balcão várias vezes e, finalmente, verbalizam sua forte emoção: “pu*** que pa***, cara****!!!!!”
Depois de quase cair do banquinho, tamanho o susto que leva, minha filha me olha, atônita, e seu olhar é de pura interrogação. Ela não me pergunta nada, mas leio seus pensamentos: “você pode me explicar o que significa isso, já que você é minha mãe e, como você mesma diz, sabe de coisas que eu ainda não sei?” Eu não respondo nada, mas ela também deve ler meus pensamentos: “não, não posso te explicar porque não faço a menor ideia.” Ela, então, também resolve verbalizar sua forte emoção e diz: “tenho vontade de matar esses homens.” Compreendo, mas não apoio essa reação motivada pela mera construção cultural dos gêneros. Mas acho desnecessário prosseguir a conversa porque há coisas na vida que ela vai ter que entender - ou não entender - sozinha.