Liberdade vigiada
Minha coluna, publicada na TPM de março, na reportagem “Vai subir?”
“Sexo 40 graus.” “O melhor sexo da sua vida.” “O clímax de 43 segundos.” “Os portões do paraíso.” “Orgasmo já!” “Explosão de prazer.” “Hot!” “Sexy!” “Tórrido!” “Garota, chegou a sua vez.” Nas chamadas de capa da “revista feminina mais vendida no mundo”, a nova velha ordem: goze hoje! Goze sempre! Para sempre. Do ponto de vista masculino, só mesmo uma ereção permanente para dar conta dessa máquina de prazer, dessa mulher assustadoramente livre, poderosa, dona do seu corpo e do seu desejo.
Assustador, entretanto, é notar que a mulher que pulsa de prazer nas páginas da revista não parece livre, nem poderosa, não parece dona do seu corpo, nem do seu desejo. Sua imagem é a de uma obediente seguidora de regras que copia o look de uma, batalha pela barriga de outra, lambe de cima para baixo, agora de baixo para cima, segura no ângulo x, apalpa com a pressão y. Aprendeu? Recorte e leve na bolsa, para consultar. Que par perfeito: a mulher turbinada pelas técnicas do desejo e o homem turbinado pela pílula da virilidade. Dois tristes personagens de um mundo obeso de sensações, explodindo de excitação produzida por corpos perfeitamente artificiais. Um mundo de espelhos.
Jovens saudáveis tomam remédio para a impotência sem serem impotentes. Como assim, sem serem impotentes? Somos todos impotentes. É impossível não ser impotente diante desse ideal de prazer. Nunca conseguiremos sentir essa profusão de sensações ininterruptas. Para sempre haverá um abismo entre a mediocridade de nossas vidas comuns e a usina de energia que bomba no trio elétrico da mídia. “Vivo tão intensamente que não dá tempo para ter medo, insegurança” disse, mês passado, a estrela de muitas capas. Ela disse e a revista, é claro, destacou a frase, que funciona como uma espécie de síntese de seu projeto pedagógico. Mas que graça tem viver assim? Que graça tem uma ereção que nunca acaba?
Uma vez ouvi de um amigo que a fragilidade era o que mais o interessava nas pessoas. Um ponto de verdadeira conexão. E que, por isso mesmo, ele não fazia a menor queståo de esconder as suas ou, mesmo, de resolvê-las. Na época, devo ter sugerido que ele aumentasse a frequência das suas sessões de análise. Hoje, pediria imediatamente o número do seu analista. Quando o efeito do remédio passar, os espelhos ficarem empoeirados e, eventualmente, o par perfeito se olhar de perto, é provável que também concorde com meu amigo.
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Vanessa Haigh disse,
12 de Março de 2010 @ 16:45
Outro dia me vi numa festa no meio de uma turma defendendo as plásticas como maneira de “se sentir melhor consigo mesmo”, “aumentar a auto estima”, “usar tudo o que está disponível para ficar mais bonito”. Eu era a única que tava achando que a coisa não era por ali…
laura disse,
14 de Março de 2010 @ 16:29
acompanho o blog há um tempo e adoro, mas este post está especialmente sensacional! sempre me pergunto de onde a mídia tirou todos esses padrões inatingíveis. e o pior é que os leitores/espectadores em sua maioria não têm espírito crítico pra questionar o que lhes é mostrado. aí a coisa vai se retroalimentando…
Elaine disse,
15 de Março de 2010 @ 13:03
Denise, me encanto com a clareza de raciocínio e com tua habilidade com as palavras. Parece que, para algumas mulheres, infelizemente, importa mais parecer ser feliz. Choque de realidade não faz mal a ninguém! abs
Elaine
Beatriz Moraes disse,
8 de Julho de 2010 @ 10:32
Ótimo texto, Denise. Eu admiro pessoas imperfeitas, que assumem e reconhecem seus defeitos, porque elas são mais próximas da realidade, não vivem nesse pedestal inalcançável. Abraço!