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	<title>Blog da Denise Gallo</title>
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	<description>Marketing e Mulher</description>
	<pubDate>Sat, 14 Aug 2010 20:26:32 +0000</pubDate>
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		<title>Socorro! Ouço vozes</title>
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		<pubDate>Sat, 14 Aug 2010 20:26:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[Era uma vez um dia livre. O que fazer? Vontade de ficar em casa, sem fazer nada. Mas talvez você devesse ir à academia se exercitar um pouco. Pensando bem, tantas exposicões legais e tão raro ter um dia livre. E sua avó, que você prometeu visitar? Mas, se for ficar em casa mesmo, vê [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Era uma vez um dia livre. O que fazer? Vontade de ficar em casa, sem fazer nada. Mas talvez você devesse ir à academia se exercitar um pouco. Pensando bem, tantas exposicões legais e tão raro ter um dia livre. E sua avó, que você prometeu visitar? Mas, se for ficar em casa mesmo, vê se arruma aquelas gavetas! Para distrair suas vozes internas, você decide folhear uma revista. E a tortura prossegue…</p>
<p>A página, aberta aleatoriamente, diz assim: “transforme uma simples chuveirada em um ritual de beleza e bem-estar”. Mas por que uma simples chuveirada não pode ser uma simples chuveirada? Por que tudo tem que ser uma experiência maravilhosa, um ritual inesquecível? O que fazer com tanta expectativa? Na chuveirada e na vida? E, pior, o que fazer com essa verdade mentirosa que diz que tudo depende das suas escolhas? Do Mozart que, caso você escolha fazer seu bebê ouvir, o fará mais inteligente à soja que, caso você escolha comer, fará você viver mais. A perguntinha segue ressoando: será que você está fazendo a escolha certa?</p>
<p>A combinação do discurso da autonomia individual com ideais de vida sempre tão rigorosos, pode ser muito boa para quem vende produtos, técnicas ou conselhos. Para quem está do lado de cá do balcão, é apenas um cercadinho travestido de liberdade, que gera falta e frustração. Você paga pela frustração de nunca chegar lá - até porque “lá” nunca estará no mesmo lugar – e ganha a culpa de brinde, ao duvidar das escolhas que fez. Porque, é claro, vai duvidar.</p>
<p><strong>Culpa, o pretinho básico</strong></p>
<p>Curioso como a culpa tornou-se um lugar comum nas representações do feminino contemporâneo. Falar da mulher, de uns tempos para cá, é quase sempre falar de múltiplos papéis e da culpa pela impossibilidade de exercê-los com perfeição. Na mídia e na publicidade, a culpa feminina é o tubinho preto, o <em>must have</em>. E funciona como o componente de sinceridade de um discurso que pretende ser mais verdadeiro. Que ganho pequenino. Sinceridade, mesmo, é dizer que a mulher sente tanta culpa simplesmente porque não é livre. Porque no picadeiro de mulheres malabaristas, trapezistas e equilibristas ainda não cabem outras escolhas ou reais imperfeições. A não ser por essa pequena, embora muito perturbadora, concessão: a culpa por não ser perfeita.</p>
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		<title>Perigo é ser segura</title>
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		<pubDate>Sun, 23 May 2010 01:48:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[Minha coluna publicada na TPM de maio, na reportagem Você é piriguete?
Se piriguete é a mulher perigosa, a mulher que ameaça e incomoda, então quem é a mulher segura, que agrada e se comporta bem? A segurete. Por que não? Se todo mundo pode criar rótulos para mulheres, eu também posso. Mas, para criar um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Minha coluna publicada na TPM de maio, na reportagem <a href="http://revistatpm.uol.com.br/reportagens/sera-que-voce-e-piriguete.html">Você é piriguete?</a></em></p>
<p>Se piriguete é a mulher perigosa, a mulher que ameaça e incomoda, então quem é a mulher segura, que agrada e se comporta bem? A segurete. Por que não? Se todo mundo pode criar rótulos para mulheres, eu também posso. Mas, para criar um rótulo, é preciso se inspirar em figuras femininas que habitem nosso mundo, real ou imaginário. Vale estar nas bancas de revistas todos os meses? Vale. Então pronto! Segurete é a mulher das revistas. A mulher dos manuais. A mulher adequada. A leitora exemplar. Que batalha para ocupar o estreito espaço que lhe foi oferecido pela mídia e, assim, se sentir segura. Segurete.</p>
<p>Por exemplo, a segurete não sai por aí beijando quem quiser na boca, não. Isso é coisa de piriguete. A segurete está mais preocupada com dicas preciosas para conquistar e manter o romance com que sonha desde sempre. “É ele?” é uma pergunta que a segurete se faz com frequência diante de um pretendente, mal disfarçando a ansiedade para que, sim, seja ele, porque ela não aguenta mais esperar. A revista ajuda: “Como saber (finalmente) se você está namorando”. E dá-lhe manual para ensinar a leitora a descobrir se o gato tem intenções mais sérias. Sempre, é claro, partindo do princípio que ela quer muito e que o namoro só depende da decisão dele. Afinal, a leitora precisa sentir-se aprovada pelos homens para seguir segura. Segurete.</p>
<p>A segurete das revistas precisa também de ajuda para descobrir sua verdadeira identidade, para ser ela mesma. E, novamente, dá-lhe manual. Muitos especialistas a postos para ensiná-la a encontrar o seu “eu de verdade” ou, se o seu “eu de verdade” não estiver mais up-to-date, ensiná-la a reinventar-se. A segurete curte uma reinvenção pessoal. Lembrando sempre que transformar-se nessa mulher poderosa, cuja auto-estima bomba, o corpo resplandece e a felicidade contagia, só depende dela mesma. As regras estão ali, para quem quiser aplicá-las e, assim, seguir segura. Segurete.</p>
<p>O corpo da segurete é um capítulo à parte. Ou, melhor, permeia todos os capítulos. Sem corpo bom a segurete não vai a lugar nenhum. A revista faz a sua parte: apresenta todas as tecnologias revolucionárias para derreter barriga, alisar cabelo, esticar epiderme, combater flacidez, empinar bumbum. Tudo para que a leitora fique “naturalmente” bela, magra e jovem. Aos 20, 30, 40, 50 e mais. Já o figurino é mais simples. Nada que 384 ideias para o look do inverno não resolvam. Qualquer coisa, se ficar confusa, é só apostar no “nude” que deve dar certo por mais alguns meses e seguir autoconfiante e segura. Segurete.</p>
<p>O manual da segurete é extenso e diversificado. Das orientações para atingir o orgasmo aos métodos para educar filhos brilhantes, segurete que é segurete não perde a esperança nem a disposição para aprender tudo e tentar passar na prova. Só não pode ficar segura de verdade porque, aí, não vai mais precisar de manuais e, neste caso, o que será da próxima edição?</p>
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		<title>Lanche, futebol e estudos de gênero</title>
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		<pubDate>Mon, 29 Mar 2010 12:00:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[Queijo quente na padoca da estrada. Vários homens assistem ao futebol na TV. Todos quietos e muito compenetrados. Chamo o moço do balcão umas três ou quatro vezes até que ele, finalmente, resolve desviar os olhos do jogo e me dá alguma atenção.
O rapaz me olha como se dissesse: tenha a santa paciência! Precisa mesmo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Queijo quente na padoca da estrada. Vários homens assistem ao futebol na TV. Todos quietos e muito compenetrados. Chamo o moço do balcão umas três ou quatro vezes até que ele, finalmente, resolve desviar os olhos do jogo e me dá alguma atenção.</p>
<p>O rapaz me olha como se dissesse: tenha a santa paciência! Precisa mesmo pedir agora? Ele repete tudo o que eu digo, possivelmente para ganhar tempo e ver mais um lance, antes de ser obrigado a levantar-se do seu banquinho vip para atender aos meus caprichos. Mais ou menos assim:</p>
<p>Eu: “por favor, eu queria dois queijos quentes no pão de forma.”<br />
Ele: “dois queijos quentes? … … No pão de forma?”<br />
Eu: “isso. E dois sucos de laranja.”<br />
Ele: “dois sucos? … … De laranja?”</p>
<p>Os dois queijos quentes não parecem ser um problema para ele, porque a execução desses ele delega, berrando, ao chapeiro que está no outro balcão. Ele que se vire. Mas os dois sucos de laranja… Pô, será que eu não entendo? Não estou vendo a posição do espremedor de laranjas? Não percebo que, para fazer meus dois sucos de madame desconectada da realidade, ele será obrigado a ficar de costas para a televisão? Em que planeta eu vivo? Não estou vendo que o São Paulo e o Corinthians estão jogando? Onde está o respeito às individualidades? Eu não podia ter pedido uma Coca e pronto? Por que as mulheres são tão complicadas?</p>
<p>É claro que ele não diz nada disso. Mas pensa. Ele e os demais rapazes que estão debruçados sobre o balcão, olhos esbugalhados, fixos no monitor. Aliás, todos eles devem ter dito algo semelhante em casa, antes de resolverem assistir ao jogo, em paz na padoca, longe desses inconvenientes pedidos femininos.</p>
<p>De costas para a TV, ele prepara meu suco e eu fico ali, absorta em meus pensamentos, enquanto olho minha filha andando pra lá e pra cá. Mais precisamente, penso em como evoluí como mãe, desde os tempos em que esterelizava a chupeta a cada vez que ela caía no chão da minha própria casa. Como me abri ao fascinante mundo das bactérias para chegar até esse queijo quente na padoca da estrada. Nem gel antisséptico eu carrego mais…</p>
<p>Já estamos saboreando nosso queijo quente engordurado quando, de repente, o Corinthians faz gol. GOOOOOOOLLLLLLLLL. Todos os homens, mudos até então, agora berram, urram, batem as mãos no balcão várias vezes e, finalmente, verbalizam sua forte emoção: “pu*** que pa***, cara****!!!!!”</p>
<p>Depois de quase cair do banquinho, tamanho o susto que leva, minha filha me olha, atônita, e seu olhar é de pura interrogação. Ela não me pergunta nada, mas leio seus pensamentos: “você pode me explicar o que significa isso, já que você é minha mãe e, como você mesma diz, sabe de coisas que eu ainda não sei?” Eu não respondo nada, mas ela também deve ler meus pensamentos: “não, não posso te explicar porque não faço a menor ideia.” Ela, então, também resolve verbalizar sua forte emoção e diz: “tenho vontade de matar esses homens.” Compreendo, mas não apoio essa reação motivada pela mera construção cultural dos gêneros. Mas acho desnecessário prosseguir a conversa porque há coisas na vida que ela vai ter que entender - ou não entender - sozinha.
</p>
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		<title>Era uma vez&#8230;</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Mar 2010 20:56:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[Não estamos na Idade Média. Não há castelos, não há cavaleiros, nem carruagens. Tudo se passa em uma linda praia. Praia de areia branca e fofa, mar verde e muitos peixes. Ali, o céu é bem azul de dia e muito, muito estrelado à noite. Encantos e feitiços, há aos montes. Príncipes e princesas, também. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não estamos na Idade Média. Não há castelos, não há cavaleiros, nem carruagens. Tudo se passa em uma linda praia. Praia de areia branca e fofa, mar verde e muitos peixes. Ali, o céu é bem azul de dia e muito, muito estrelado à noite. Encantos e feitiços, há aos montes. Príncipes e princesas, também. Todos aprendendo a lidar com hormônios esquisitos que começam a inundar seus cérebros bem confusos.</p>
<p>Há muitas bruxas nesta história. A maior parte delas, as princesas só conhecerão no futuro. Um futuro próximo, talvez. Há a bruxa culpa, a bruxa obsessão, a bruxa não posso engordar, a bruxa não posso envelhecer, a bruxa boicote a sonhos, a bruxa preciso do que na verdade não preciso… e muitas outras, que estão só esperando sua hora para começar a atazanar a vida das lindas princesas.</p>
<p>Nossa princesa favorita - neste reino à beira-mar - tem 14 anos. Todos os anos, ela passa férias nesta praia por tempo suficiente para que seus pés pareçam tudo, menos pés de princesa. E sua pele fique moreninha, moreninha (no tempo dessas princesas, o sol era um grande amigo e ninguém via nenhuma razão para se proteger dele).</p>
<p>Este reino é mesmo um lugar encantado para nossa princesa. E é também seu grande segredo. Foi neste reino que ela descobriu que se sente sozinha e que gosta de se sentir assim. Descobriu que dentro dela, existem duas, talvez mais. Descobriu o amor e o prazer. Descobriu a raiva, a aflição e muitos momentos incríveis dos quais se lembrará para sempre.</p>
<p>Quando nossa princesa se senta diante do mar, no final da tarde, não sabe direito o que sente, mas sabe que sente o sentimento mais forte que já sentiu, que enche seu peito da certeza de que, se conseguir se livrar de todas as bruxas que ainda virão, ela vai viver uma vida linda e cheia de aventuras. </p>
<p>Nossa princesa tem uma enorme urgência de viver. Quer crescer logo. Ser uma princesa adulta. Viver todos os amores que imagina que vai viver. E sua imaginação é muito ativa! Mas isso é a cabeça da princesa. Seu corpo está preguiçoso da vida. Não quer crescer não. Quer ser o mais criança de todas as outras princesas do reino. Para a alegria da mãe da princesa. Alegria boba que a princesa só conseguirá entender no futuro, quando também for uma rainha, cuidando de outra princesa.</p>
<p>Foi numa noite - neste reino à beira-mar - que a princesa encontrou uma fada. Ela era muito linda, roxa e brilhante, falava devagar, bem pausadamente. Seu nome era Paciência. Ela disse assim à princesa: “sou sua fada e seu maior desafio. Vou te proteger e também te ameaçar. Muitas vezes lutaremos juntas contra todos os inimigos. Outras vezes, é comigo que você lutará. Brincaremos de esconde-esconde, às vezes rindo, às vezes não. Você achará que sou eu a inimiga, mas é comigo que chegará aos lugares mais maravilhosos e encontrará os tesouros mais preciosos. Começaremos nosso jogo agora”. Dizendo isso, a fada desapareceu. Nossa princesa começou a chamá-la, chamá-la até gritar… Ficou furiosa e saiu chorando e batendo o pé. Ainda levaria algum tempo para saber que jogo era aquele e porque era preciso jogá-lo…</p>
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		<title>Liberdade vigiada</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Mar 2010 18:23:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[Minha coluna, publicada na TPM de março, na reportagem &#8220;Vai subir?&#8221;
“Sexo 40 graus.” “O melhor sexo da sua vida.” “O clímax de 43 segundos.” “Os portões do paraíso.” “Orgasmo já!” “Explosão de prazer.” “Hot!” “Sexy!” “Tórrido!” “Garota, chegou a sua vez.” Nas chamadas de capa da “revista feminina mais vendida no mundo”, a nova velha [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Minha coluna, publicada na TPM de março, na reportagem <a href="http://newhost.revistatpm.com.br/revista/96/reportagens/vai-subir.html">&#8220;Vai subir?&#8221;</a></em></p>
<p>“Sexo 40 graus.” “O melhor sexo da sua vida.” “O clímax de 43 segundos.” “Os portões do paraíso.” “Orgasmo já!” “Explosão de prazer.” “Hot!” “Sexy!” “Tórrido!” “Garota, chegou a sua vez.” Nas chamadas de capa da “revista feminina mais vendida no mundo”, a nova velha ordem: goze hoje! Goze sempre! Para sempre. Do ponto de vista masculino, só mesmo uma ereção permanente para dar conta dessa máquina de prazer, dessa mulher assustadoramente livre, poderosa, dona do seu corpo e do seu desejo.</p>
<p>Assustador, entretanto, é notar que a mulher que pulsa de prazer nas páginas da revista não parece livre, nem poderosa, não parece dona do seu corpo, nem do seu desejo. Sua imagem é a de uma obediente seguidora de regras que copia o look de uma, batalha pela barriga de outra, lambe de cima para baixo, agora de baixo para cima, segura no ângulo x, apalpa com a pressão y. Aprendeu? Recorte e leve na bolsa, para consultar. Que par perfeito: a mulher turbinada pelas técnicas do desejo e o homem turbinado pela pílula da virilidade. Dois tristes personagens de um mundo obeso de sensações, explodindo de excitação produzida por corpos perfeitamente artificiais. Um mundo de espelhos.</p>
<p>Jovens saudáveis tomam remédio para a impotência sem serem impotentes. Como assim, sem serem impotentes? Somos todos impotentes. É impossível não ser impotente diante desse ideal de prazer. Nunca conseguiremos sentir essa profusão de sensações ininterruptas. Para sempre haverá um abismo entre a mediocridade de nossas vidas comuns e a usina de energia que bomba no trio elétrico da mídia. “Vivo tão intensamente que não dá tempo para ter medo, insegurança” disse, mês passado, a estrela de muitas capas. Ela disse e a revista, é claro, destacou a frase, que funciona como uma espécie de síntese de seu projeto pedagógico. Mas que graça tem viver assim? Que graça tem uma ereção que nunca acaba?</p>
<p>Uma vez ouvi de um amigo que a fragilidade era o que mais o interessava nas pessoas. Um ponto de verdadeira conexão. E que, por isso mesmo, ele não fazia a menor queståo de esconder as suas ou, mesmo, de resolvê-las. Na época, devo ter sugerido que ele aumentasse a frequência das suas sessões de análise. Hoje, pediria imediatamente o número do seu analista. Quando o efeito do remédio passar, os espelhos ficarem empoeirados e, eventualmente, o par perfeito se olhar de perto, é provável que também concorde com meu amigo.</p>
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		<title>Novas autoridades</title>
		<link>http://blog.umaauma.com.br/2010/01/17/novas-autoridades/</link>
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		<pubDate>Sun, 17 Jan 2010 18:34:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[Minha coluna, publicada na Revista TPM de janeiro.
A vida dos profissionais de marketing já foi mais fácil. Bons tempos - e nem faz tanto tempo assim – em que seu trabalho era decidir como comunicar as incríveis novidades que os engenheiros inventavam para os produtos. Faziam umas pesquisas para se certificar de que a massa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Minha coluna, publicada na Revista TPM de janeiro.</em></p>
<p>A vida dos profissionais de marketing já foi mais fácil. Bons tempos - e nem faz tanto tempo assim – em que seu trabalho era decidir como comunicar as incríveis novidades que os engenheiros inventavam para os produtos. Faziam umas pesquisas para se certificar de que a massa de consumidores entenderia o que seria dito na publicidade, compravam bastante espaço para pôr seus comerciais na novela e pronto.</p>
<p>As coisas ficaram mais difíceis quando falar do produto já não fazia muita diferença. Com a tecnologia disponível a todos os concorrentes, as marcas passaram a precisar de personalidade, de alma. Os profissionais de marketing tiveram que ficar sensíveis - meio místicos, meio bruxos - para dar conta de tanta magia. Alma psicografada, o negócio era dar play no maior número possível de canais, para cobrir a audiência cada vez mais fragmentada, com mensagens coerentes e, principalmente, controladas.</p>
<p>Mas estes consumidores não sossegam! Agora resolveram se expressar. Estão ficando saidinhos. Escrevem blogs, publicam o que querem, atingem milhares de pessoas, se organizam em torno de seus próprios interesses e causas. E, ainda por cima, estão ficando céticos em relação à publicidade das empresas. Preferem as recomendações de pessoas comuns, dentro ou fora do ambiente on-line. Pessoas conectadas com pessoas. Milhões de pessoas conectadas entre si. Os publicitários devem estar pensando que eram felizes e não sabiam, quando seu principal desafio era o controle remoto.</p>
<p>Embora muito do que se vê nas redes sociais ainda seja motivado por uma vontade de aparecer nunca antes imaginada - com pessoas compartilhando com o mundo notícias tão relevantes quanto “estou saindo da academia” - é impossível não enxergar a descentralização da autoridade entre emissores e receptores e o potencial de transformação que isso representa. O problema é a vontade incontrolável de controlar. Especialistas se apressam em desenvolver técnicas para colonizar as novas terras, aprendendo a identificar influenciadores e a utilizá-los como mídia “espontânea” de suas marcas. O risco é que, para lidar com tanta “espontaneidade”, no limite, não acreditemos mais em nada. Já imaginou? Você desconfiar que sua mãe é agente de boca-a-boca da malharia do bairro e é por isso que insiste que você leve o casaquinho para não tomar friagem? Bom será se marcas com postura transformadora – acho que existem – optarem por, no lugar de velhas estratégias de controle, fortalecer movimentos e espalhar ideias que realmente façam diferença em nossas vidas e no mundo.</p>
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		<title>Símbolos líquidos</title>
		<link>http://blog.umaauma.com.br/2009/10/03/simbolos-liquidos-2/</link>
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		<pubDate>Sun, 04 Oct 2009 01:23:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[Acorda, toma café rapidinho. Corre no clube, toma banho rapidinho. Depilação, unha, supermercado, livraria, almoço rapidinho. Liquidação, tecido novo para o sofá, exposição na Oca, café rapidinho. Corre, que ainda tem que tirar o atraso do cinema, jantar em algum lugar que valha a pena, passar no aniversário da amiga e tentar dormir bem para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Acorda, toma café rapidinho. Corre no clube, toma banho rapidinho. Depilação, unha, supermercado, livraria, almoço rapidinho. Liquidação, tecido novo para o sofá, exposição na Oca, café rapidinho. Corre, que ainda tem que tirar o atraso do cinema, jantar em algum lugar que valha a pena, passar no aniversário da amiga e tentar dormir bem para descansar, porque os sábados servem para isso. Para tudo isso. Encontro semanal com o seu bem-estar&#8230;</p>
<p>Quer saber o que é bem-estar? Ou melhor, o que é ser produtiva? Ou melhor ainda: o que é uma mulher produtiva em busca do seu bem-estar? Lá vai: sábado, uma amiga combinou um almoço comigo. Já estava chegando a hora e ela me ligou: “estou quase acabando tuuuudo o que tinha pra fazer. Agora só falta trocar minha aliança, mas já estou aqui na porta da H.Stern”. Demorei alguns segundos para entender. Por que ela ia trocar a aliança? A resposta veio sem que eu precisasse perguntar: ela não gosta de aliança fina, nunca gostou e, agora, cinco anos depois, resolveu trocá-la por uma mais grossa. Nunca esteve tão claro para ela: essa coisa de aliança fininha, delicadinha, levinha não combina com sua mão e, muito menos, com o seu casamento. Existe casamento fininho, delicadinho, levinho? O marido continuará a usar a aliança fininha porque ele gosta. Ou talvez goste da idéia de um casamento mais levinho. Mas ficou tudo bem entre eles. Aliás, tudo ótimo. Nada mais honesto que a aliança, justamente o objeto que simboliza a união, deixe bem explícita a questão essencial de todas as uniões: as diferenças. Cada um com sua individualidade, cada um com a sua espessura de aliança!</p>
<p>No mesmo dia, já em outro lugar (sábado é sábado), ouvi duas mulheres conversando. O assunto? Alianças. Ex-alianças, nesse caso. Elas conversavam sobre o que haviam feito com as suas, depois da separação. Uma largou a aliança numa caixa de badulaques, misturada a lápis quebrado, papel velho, parafuso perdido, e seu destino parece certo: o lixo. A outra guardou a sua na caixinha de jóias, sem pensar muito, mas agora, pensando bem, pra quê? Até o final da noite ela já tinha decidido que ia derreter a aliança e mandar fazer um pingente para sua filha. Quem sabe um anjo protetor das diferenças?</p>
<p>E levando-se em conta que, segundo o IBGE, aproximadamente 30% dos casamentos acabam em separação, esse negócio de derreter alianças e transformá-las em outra coisa pode ser promissor.
</p>
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		<title>Coluna TPM</title>
		<link>http://blog.umaauma.com.br/2009/08/24/vidas-editadas/</link>
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		<pubDate>Tue, 25 Aug 2009 00:52:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
		<category>Sem Categoria</category>

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		<description><![CDATA[Minha coluna, publicada na TPM de agosto, na reportagem &#8220;Mentira!&#8221;
Vidas Editadas
Por Denise Gallo
Nunca compare seu interior com o exterior dos outros. A frase, muito usada por um amigo meu, é conselho essencial para a sobrevivência em tempos de biografias lapidadas. Repita-a mentalmente quando encontrar aquele casal que adora relatar viagens românticas inesquecíveis, quando conversar com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Minha coluna, publicada na TPM de agosto, na reportagem &#8220;Mentira!&#8221;</em></p>
<p><strong>Vidas Editadas</strong><br />
Por Denise Gallo</p>
<p>Nunca compare seu interior com o exterior dos outros. A frase, muito usada por um amigo meu, é conselho essencial para a sobrevivência em tempos de biografias lapidadas. Repita-a mentalmente quando encontrar aquele casal que adora relatar viagens românticas inesquecíveis, quando conversar com a ex-colega de faculdade que está à mil na carreira, quando estiver diante das fotos daquela família linda, que não é a sua, e parece tão perfeita. Agora, se você gosta de ler entrevistas com mulheres famosas em revistas femininas, faça um favor a si mesma e tatue a frase na mão para jamais perdê-la de vista. Assim, chamadas de capa do tipo “hoje sou uma mulher que tem tudo”, terão o destino que merecem: sua indiferença.</p>
<p>Estariam todos mentindo? Provavelmente não. Apenas elaborando narrativas atraentes. Realidade com toques de ficção. Ou ficção com toques de realidade. Estes limites andam mesmo muito tênues. Mentiras sinceras, como diria Cazuza. As vidas narradas podem soar tão bem&#8230; Com discursos apoiados em experientes consultores de imagem, então, são verdadeiros bálsamos para reforçar nosso imaginário de sucesso. Quando o que conta é a visibilidade, passar em branco é o pior dos pesadelos. Mas, com uma boa estratégia de branding, todo mundo pode lançar um novo “eu”, posicioná-lo no mercado das identidades bem-sucedidas e melhorar sua performance. </p>
<p><strong>Invente-se, depois reinvente-se</strong><br />
Lembro de uma matéria publicada, há algum tempo, na maior revista do país, sobre a importância de esculpir uma marca pessoal convincente, da mesma forma que as empresas fazem com os seus produtos, com a ajuda de profissionais especializados. O renomado especialista em autopromoção dava o tom: “você precisa ser a sua melhor criação”. A melhor coisa era o teste de 32 questões para avaliar “o que você oferece, para quem e o que tem de diferente”, se “sua aparência reflete quem você é e está adequada ao seu mercado”, se “você sabe dizer sem pestanejar quais são suas grandes paixões na vida” e se “você sabe qual é o próximo passo para a evolução da sua marca”. Para aqueles que não atingissem desempenho satisfatório, o implacável veredicto: “você é invisível”.</p>
<p>Munidos de subjetividades bem planejadas, expressas em “lifestyles” coerentes e atualizados, sem nunca perder o bonde das tendências, os indivíduos/marcas ocupam seu lugar no mundo/mercado. Fazendo aquele esforço diário para acreditar no personagem. Mas, o bom é perceber que nem sempre a vida aceita planos bem bolados só porque são bem bolados. E, quando as coisas dão errado e a marca sai de linha, vem a incrível oportunidade de olhar para o vazio e perceber na fragilidade a maior das inspirações. Para pensar sobre isso, sugiro o filme “Enquanto o sol não vem”, de Agnès Jaoui. Uma linda homenagem àquilo que não queremos mostrar sobre nós mesmos.</p>
<p><em>Denise Gallo é sócia da Uma a Uma, empresa de inteligência de mercado especializada em comportamento feminino.</em>
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		<title>A retomada</title>
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		<pubDate>Wed, 12 Aug 2009 19:03:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
		<category>Sem Categoria</category>

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		<description><![CDATA[O nome da nossa entrevistada é Ana Lígia. Tem 41 anos, é arquiteta e mãe de duas meninas. Está separada há um ano e meio. Não iremos descrever sua extenuante rotina de mãe, profissional, dona-de-casa, solteira, amiga, filha, paciente, neo-baladeira etc., porque já dá pra imaginar. O resumo do resumo: não dá tempo!
Ana Lígia gosta [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O nome da nossa entrevistada é Ana Lígia. Tem 41 anos, é arquiteta e mãe de duas meninas. Está separada há um ano e meio. Não iremos descrever sua extenuante rotina de mãe, profissional, dona-de-casa, solteira, amiga, filha, paciente, neo-baladeira etc., porque já dá pra imaginar. O resumo do resumo: não dá tempo!</p>
<p>Ana Lígia gosta de pensar que um ano e meio ainda é pouco tempo para construir uma “vida nova”, mas é obrigada a discordar de si mesma cada vez que recebe uma notícia do seu ex-marido que, no mesmo ano e meio, já conseguiu emagrecer, voltar a surfar, ser promovido, comprar uma casa na praia, viajar para os quatro cantos do mundo e casar-se com uma moça de 28 anos que, Ana Lígia soube esses dias, está grávida de 3 meses. Um ano e meio: tanto para uns, tão pouco para Ana Lígia.</p>
<p>Quando Ana Lígia sente-se sozinha, ela entra no site do IBGE. Ela gosta de se reconhecer nas estatísticas e lembrar que não, ela não está sozinha: a taxa de divórcios no Brasil subiu 200% entre 1984 e 2007; em 2007, para cada quatro casamentos civis, foi realizada uma separação; a idade média da mulher quando se separa é justamente 39 anos; é a mulher quem fica com a guarda dos filhos em 89% dos casos; os homens divorciados se casam mais do que as mulheres divorciadas e o casamento entre homens divorciados e mulheres solteiras foi a modalidade que mais cresceu entre os registros civis na última década. Ou seja, o IBGE é praticamente um anti-depressivo para Ana Lígia. Quantitativamente, Ana Lígia <em>pertence</em>.</p>
<p>Qualitativamente, as coisas são um pouco mais complicadas. Se, até pouco tempo atrás, Ana Lígia costumava ouvir as histórias de suas amigas solteiras com a curiosidade de um antropólogo, agora ela – plim! – escorregou para o lado da tribo. Mas não pôde escorregar completamente porque tinha que levar as meninas à escola hoje cedo. Seu rito de passagem - aquele momento em que, depois de 10 anos de casada e um ano e meio separada, Ana Lígia se verá protagonizando uma cena íntima com um novo homem, também conhecida como sexo – ainda está por acontecer.  Pensar nisto provoca em Ana Lígia um misto de euforia e pânico. Mais euforia do que pânico, talvez, dependendo da quantidade de luz que ela projeta na cena imaginária. Quanto mais escuro melhor, porque Ana Lígia anda cheia de encanações com o seu corpo.</p>
<p>O que está acontecendo na vida de Ana Lígia merece muita atenção. Segundo suas próprias palavras, “turbilhão de mudanças, turbilhão de emoções”. Reorganização total. Da forma como passou a administrar a casa às mudanças nos hábitos de lazer. Dos novos amigos que fez às viagens só com as filhas. Do medo do primeiro Natal ao prazer de ficar em casa sozinha. Do novo planejamento financeiro à curiosidade sobre tudo o que está por viver. Novos hábitos, novas necessidades, novos consumos. Ana Lígia precisa ser melhor compreendida para ser melhor representada e comentou conosco que, evidentemente, nunca se reconhece nas publicidades que vê. Mas isso não é novidade.</p>
<p>No final de nossa conversa, Ana Lígia nos disse que talvez não faça sentido esperar por uma “vida nova” porque a “vida nova” é o que está rolando todos os dias e, apesar de todo o caos, ela  não lembra de ter se sentido tão cheia de vida como agora. Isso sim é novo.</p>
<p><em>Denise Gallo é sócia da Uma a Uma, empresa de inteligência de mercado especializada em comportamento feminino.</em></p>
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		<title>Coluna TPM</title>
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		<pubDate>Thu, 16 Jul 2009 14:21:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
		<category>Sem Categoria</category>

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		<description><![CDATA[Minha coluna, publicada na TPM de julho, dentro da reportagem &#8220;Nojenta?&#8220;. Tema: excesso de higiene feminina ou mulher limpinha, lisinha, sem pelos, sem cheiro e sem graça&#8230;
Neutralize-se
Por Denise Gallo
Após meses de sedução mútua, encontram-se na rua, por acaso, e resolvem tomar um chope. Um frio na barriga puxa o outro e acabam indo para a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Minha coluna, publicada na TPM de julho, dentro da reportagem &#8220;<a href="http://revistatpm.uol.com.br/revista/89/reportagens/nojenta/page-1.html">Nojenta?</a>&#8220;. Tema: excesso de higiene feminina ou mulher limpinha, lisinha, sem pelos, sem cheiro e sem graça&#8230;</em></p>
<p><strong>Neutralize-se</strong><br />
Por Denise Gallo</p>
<p>Após meses de sedução mútua, encontram-se na rua, por acaso, e resolvem tomar um chope. Um frio na barriga puxa o outro e acabam indo para a casa dela. Mas ela sente um mal-estar. Sabe que não está preparada. Precisa resolver algumas pendências o quanto antes. Por isso, pedirá a ele que escolha uma música e correrá até o banheiro. Será rápida. Com a base líquida, cobrirá as manchinhas na pele. Com o creme depilatório, fará sumir os pelos intrusos. Com o lenço umedecido íntimo, eliminará “odores naturais”. Umas gotinhas de perfume e - agora sim! - sente-se adequada e feminina. Pronta para trocar fluidos higienizados noite adentro.</p>
<p>“Neutraliza odores naturais femininos”. Essa promessa, estampada em tantas embalagens de produtos íntimos, é a mais perfeita tradução do comando sórdido que dá como certo que odores naturais femininos são indesejados. Aliás, quando se trata do corpo feminino, a coluna dos “naturais indesejados” não para de crescer. Nada está bom do jeito que é. O Photoshop invade a vida real, na forma de corretivos, lenços umedecidos e aromatizantes bucais, para retocar cheiros e sabores, texturas e cores, rugas e manchas. Neutralizada em suas singularidades, a mulher lisinha, sequinha, com sabor de cereja e cheiro de perfume é a mulher desejável. Lição a ser aprendida desde cedo, como comprova a revista mui-amiga das adolescentes e suas matérias sobre produtos para beijar bem ou sobre lencinhos íntimos que “depois que você experimentar se tornarão itens de primeira necessidade em sua bolsa”. Por essas e outras fica mais fácil entender porque uma autora que inventa uma personagem que gosta do cheiro do seu corpo, uma coisa aparentemente simplória, é aclamada mundo afora como nova feminista.</p>
<p>É verdade que os médicos dispensam boa parte das traquitanas ofertadas nas prateleiras, quando orientam a higiene adequada, em geral muito bem resolvida com água e sabão. De qualquer forma, elas não são vendidas como meros produtos de higiene. Há uma teia de significados sugerindo que, mais do que limpar, trata-se de um ato de amor, de respeito, de cuidado consigo mesma. Mulheres passam publicidades inteiras acariciando-se em banhos intermináveis enquanto enfatizam que isso é ser feminina. “Cultive sua feminilidade todos os dias”, sugere o comercial de um. “Deixa a mulher ainda mais feminina”, promete o site do outro. Feminina e neutralizada.</p>
<p>Voltando à garota do início, podemos torcer para que, quando ela tentar ganhar tempo com o truque da música, ele fale que não precisam de música porque prefere ouvir a respiração dela. Ela, então, não terá como fugir para a sessão de assepsia no banheiro e, meio aflita, terá que vivenciar os cheiros e sabores do seu corpo em um dia normal. Mas, num lance inesperado da vida, esquecerá tudo o que leu nas revistas sobre o poder da pele aveludada e, um pouquinho mais livre, experimentará um outro tipo de intimidade. Nada neutralizada dessa vez.</p>
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